04/03/2026
A Passageira Fantasma
Não era nem dez da noite quando tudo aconteceu. A cidade ainda respirava acordada, com suas luzes amarelas piscando nas esquinas e o cheiro de churrasco escapando das barracas. Eu estava sozinho, dirigindo sem pressa, quando parei para comprar uma marmita.
Estacionei, desci, paguei e voltei para o carro pensando apenas em chegar em casa.
Abri a porta e senti o mundo parar por um segundo. No banco do carona, onde minutos antes só havia silêncio, estava sentada uma mulher vestida de branco. Não gritei — talvez por susto demais até para isso. Fiquei imóvel. O coração disparou como se quisesse fugir antes de mim.
Como ela entrou ali? Como apareceu?
Meu primeiro impulso foi correr, abandonar carro, marmita, tudo. Só que, ao tentar sair, senti sua mão tocar meu braço. Não era um toque pesado, mas era firme. E a voz que veio em seguida não tinha ameaça, tinha pedido:
— Não tenha medo. Não vou lhe fazer mal. Quero apenas passear pela cidade.
Passear? Aquilo não fazia sentido. Eu nem a conhecia. Não sabia seu nome, sua história, nem de onde tinha surgido. Mas ela falava com uma serenidade estranha, como quem já não tem pressa de nada.
Mandou que eu ficasse calmo, ligasse o carro. Disse que, no caminho, me contaria sua história.
Chamava-se Ester. Gostava muito da cidade. Já havia “andado por muitos lugares”, mas sempre se sentia sozinha. Falava com uma nostalgia difícil de explicar — como se carregasse saudade de algo que já não lhe pertencesse. Contou-me de sonhos que não pôde realizar. Falava deles com doçura, não com revolta. Apenas uma aceitação silenciosa.
Perguntei por quê.
Ela apenas respondeu:
— Logo você vai saber.
Seguimos pelas ruas quase desertas. A cidade parecia diferente naquela noite. As praças estavam mais quietas, os postes mais pálidos, como se tudo soubesse que aquela não era uma carona comum.
Quando perguntei onde deveria deixá-la, pediu que fosse no canto do Estádio de Alenquer. Disse que dali seguiria a pé. Achei estranho, mas obedeci. Parei o carro, ela abriu a porta com delicadeza e, antes de sair, agradeceu:
— Agora fico por aqui. Boa noite. Obrigada pelo passeio. Vou andando até minha morada. Não precisava me deixar na porta.
Morada.
A palavra ficou ecoando.
Desceu e começou a caminhar. Não em direção às casas, mas para o lado do Cemitério Santa Maria. A cada passo, parecia mais leve. Não olhou para trás.
Voltei para casa com a marmita já fria e a certeza de que, naquela noite, não dei apenas uma carona.
Talvez eu tenha oferecido companhia a alguém que só queria, mais uma vez, admirar sua própria cidade.