LucieneBenevides

LucieneBenevides Psicóloga e Psicanalista

11/12/2025

A premissa da igualdade de direitos entre homens e mulheres ainda esbarra numa incongruência estrutural: a cultura segue depositando sobre a mulher uma sobrecarga invisível, naturalizada e silenciosa.

Ela é convocada a ser âncora afetiva, gestora emocional da casa, cuidadora de todos e, ao mesmo tempo, corresponsável pelo custeio financeiro da família.

Enquanto isso, a sociedade segue operando como se essa dupla exigência fosse “natural”, como se o afeto, o tempo e o corpo feminino fossem recursos infinitos.

Chamamos de igualdade o que, na prática, continua sendo uma divisão desigual de trabalho, energia e sacrifício.

O paradoxo é claro: exige-se da mulher uma performance total, mas oferece-se a ela apenas o reconhecimento parcial. Não há equidade possível enquanto a responsabilidade doméstica e emocional permanecer invisível e enquanto a sobrecarga feminina for tratada como destino, e não como construção cultural que precisa ser revista.

09/12/2025

Contardo Calligaris (1948–2021) foi um dos psicanalistas mais relevantes do Brasil contemporâneo. Como pensador, instigou reflexões importantes no campo social, dentre elas o lugar histórico do feminino.

Para Calligaris, a misoginia não é apenas desprezo — é uma forma de controle psíquico:
• Desqualif**a a mulher para desarmar seu poder simbólico.
• Ridiculariza para torná-la pequena.
• Regula sua sexualidade para não ser ameaçado.
• A acusa de “perigosa” para justif**ar punições.

No fundo, trata-se de controle pela manutenção do poder patriarcal, ao custo de muita violência e subjugação.

07/12/2025

⚠️ O papel devastador do silêncio nas relações

A violência psicológica nem sempre grita. Muitas vezes, ela se exerce no subtexto, na retirada, no que não é dito.

1. O silêncio como mecanismo de punição
Quando o silêncio não é pausa, mas estratégia, ele se torna uma forma sofisticada de agressão. É o “tratamento de gelo”, que comunica: “Você só existe quando eu permito.”
Por trás dessa ferramenta há três funções psíquicas:
• Controle: ao retirar a palavra, retira-se o chão simbólico do outro.
• Punição: o silêncio cria incerteza, culpa e ansiedade.
• Superioridade narcísica: quem silencia assume poder e suspende o vínculo unilateralmente.

2. A comunicação que humilha
Não é só o silêncio, mas o que ele signif**a:
• evitar diálogo,
• interromper conversas,
• desaparecer sem explicação,
• negar respostas,
• recusar-se a nomear conflitos.
Essa recusa não busca paz — busca domínio.

3. A desestabilização emocional
A violência psicológica age lentamente. Seus sinais incluem duvidar da própria percepção (“Será que exagerei?”) e viver em tensão, esperando a próxima onda de silêncio.

4. Por que essa violência é tão nociva
Psicologicamente, organizamos a realidade pela linguagem. Quando o vínculo é rompido pela ausência de palavra, instala-se um vazio que desorienta.
O silêncio como arma produz:
• colapso simbólico,
• ansiedade de abandono,
• culpabilização,
• autoanulação — a pessoa reduz suas necessidades para evitar novos silenciamentos.

5. O que f**a por trás dessa dinâmica
O silenciamento revela imaturidade emocional, dificuldade de elaborar conflitos, necessidade de controle e fragilidade narcísica.
Quem usa o silêncio como arma não evita conflito — evita responsabilidade.

02/12/2025
17/11/2025

Por que é tão difícil estabelecer limites nas relações?
Porque, em algum nível, temos medo de perder o amor.
O “não” que poderíamos dizer soa como ameaça de abandono.
Então cedemos, silenciamos, suportamos — acreditando que, se formos compreensivos o bastante, o outro f**ará.
Então, o que chamamos de compreensão, muitas vezes, é medo disfarçado.
Medo de decepcionar, de ser visto como egoísta, de não corresponder à imagem que o outro faz de nós.
E assim, abrimos mão de nós mesmos em nome de uma harmonia que não existe.
Só que toda relação que exige a renúncia do próprio limite é uma relação que cobra caro:
a conta vem em forma de exaustão, ressentimento e culpa.
Estabelecer limites não é afastar o outro —
é sustentar a presença sem se perder nela.
É dizer: “eu te amo, mas eu também existo”.
Porque amar sem se anular é a única forma de permanecer inteiro diante do outro.

08/11/2025

A proximidade física pode até oferecer companhia, mas não garante o sentido de estar com alguém.

Quantos não se sentem sós mesmo ao lado de quem amam?

O que sustenta o encontro é algo mais sutil: a palavra que circula, o gesto que se renova, a atenção que se instaura como cuidado.

O amor se enfraquece quando se apoia apenas na rotina.

Estar junto é mais do que partilhar espaço: é sustentar a qualidade do encontro, capaz de renovar a presença.



Vídeo:

08/11/2025

Como você lida com o desafio de estabelecer limites nas relações?

07/11/2025

🖤 O que você espreita?

Há sempre algo que a gente observa sorrateiramente: um desejo, um medo, um pedaço do passado que ainda não teve coragem de se mostrar.

Às vezes, espreitamos o amor, mas o que buscamos é aprovação.
Espreitamos o afeto, mas tememos o abandono.
Espreitamos o outro, quando na verdade vigiamos o que em nós foi ferido.

O olhar que se esconde revela mais do que o que se mostra.
Ele entrega o quanto ainda queremos controlar o imprevisível, antecipar o risco, dominar a dor.

Mas a vida não se revela a quem apenas observa, ela exige presença.
E talvez o verdadeiro movimento de cura comece quando paramos de espreitar…
e finalmente nos permitimos ver.

30/10/2025

🌒 Ressentimento: o gozo da ferida que não cicatriza

O ressentimento é uma forma sofisticada de prisão emocional.
Aparentemente, ele nasce de uma injustiça, mas, no fundo, se alimenta da recusa em perder o lugar de quem foi injustiçado.

Como aponta Maria Rita Kehl, o ressentido não quer se libertar do que o feriu.
Ele quer que o tempo volte atrás, quer que o outro reconheça a dor que causou.
Mas o tempo não volta.
E é essa impossibilidade de retorno que mantém o ressentimento vivo: o sujeito se repete na esperança de refazer a cena, de reescrever o desfecho.

O ressentido goza, no sentido psicanalítico, do próprio sofrimento.
Há prazer em lembrar, em se entristecer, em repassar o diálogo que nunca foi concluído.
Porque ali, na dor, há também um resto de sentido, uma ligação narcísica com aquele que feriu.

O ressentimento é, portanto, uma forma de não se despedir.
De permanecer na cena onde fomos ofendidos, tentando controlar, tardiamente, o que já escapou.

Sair desse circuito não é esquecer, nem perdoar como quem absolve.
É aceitar a perda e, com ela, a própria condição de ser sujeito do tempo, e não seu dono.
É reconhecer que a vida se move para frente, mesmo quando o coração quer voltar.

Elaborar o ressentimento é transformar o “por que fizeram isso comigo?” em “o que ainda me prende a isso?”.
É um gesto de lucidez e liberdade.
E talvez o primeiro passo para reencontrar o amor, aquele que não depende mais da reparação, mas da presença viva em si.

O isolamento involuntário como sintoma do nosso tempo Byung-Chul Han observa que vivemos na sociedade do desempenho, ond...
15/09/2025

O isolamento involuntário como sintoma do nosso tempo
Byung-Chul Han observa que vivemos na sociedade do desempenho, onde cada indivíduo é convocado a ser empreendedor de si mesmo. Nesse cenário, a solidão não é apenas uma circunstância, mas o preço de um sistema que exige produtividade e autossuficiência a qualquer custo. A exaustão e o vazio surgem quando a vida se reduz a resultados e métricas de performance.

Já Zygmunt Bauman, em Amor Líquido, descreve como os vínculos se tornaram frágeis, moldados pela lógica do consumo: conexões rápidas, mas descartáveis. Segundo ele, “os relacionamentos se transformaram em produtos de prateleira — fáceis de adquirir, mas igualmente fáceis de abandonar”. O resultado é a experiência de estar cercado de contatos, mas carente de pertencimento.

A solidão involuntária, que a OMS já aponta como fator de risco para milhões de mortes anuais, não nasce apenas do isolamento físico, mas da precariedade das nossas formas de se relacionar.

Estamos adoecendo como sociedade, e apenas no cuidado e na solidez dos vínculos reencontraremos a condição de viver de modo verdadeiramente humano.

Link reportagem na íntegra-
https://www.instagram.com/p/DOmGXUUESuR/?igsh=MTlkdmM4dnB0NmV2Yw==

“Surpreendentemente, essa cena faz parte do comunicado oficial de noivado da princesa Sheikha Mahra, em Dubai. Mulheres ...
06/09/2025

“Surpreendentemente, essa cena faz parte do comunicado oficial de noivado da princesa Sheikha Mahra, em Dubai. Mulheres vestidas como abajures humanos — ornamentos de luxo sem rosto — ilustram o paradoxo cultural: o feminino entre a modéstia da tradição e a vitrine da ostentação. Um brilho que ilumina os outros, mas apaga a si mesmo. Até quando a mulher será convocada a ser cenário, e não sujeito?”

O feminicídio é a face mais extrema da dualidade amor e ódio. O objeto amado, quando se recusa a ser posse, passa a ser ...
20/08/2025

O feminicídio é a face mais extrema da dualidade amor e ódio. O objeto amado, quando se recusa a ser posse, passa a ser alvo da hostilidade. Em uma cultura que sustenta o discurso do “ter”, a mulher é frequentemente tratada como propriedade. Quando reivindica autonomia, o homem, incapaz de simbolizar a perda, vivencia a frustração como ferida narcísica e transforma o amor em ódio letal.

A arma de fogo, nesses casos, não é apenas instrumento, mas símbolo fálico, expressão de um poder fraturado que se repõe no real pela destruição. Os dados confirmam: em 2025, o Brasil registra aumento expressivo de feminicídios cometidos por arma de fogo, a maioria dentro de casa e praticados por parceiros ou ex-parceiros. O espaço íntimo, que deveria ser lugar de afeto, converte-se em cenário de aniquilação.

O ato de matar revela a incapacidade de simbolizar a falta e a recusa de reconhecer no outro um sujeito. Mata-se não apenas o corpo, mas a possibilidade de existir livremente.

O desafio é cultural e psíquico: aprender a suportar a frustração sem transformar o amor em ódio e a perda em destruição.

Endereço

Rua Alagoas, 1000, Bairro Savassi
Belo Horizonte, MG
30130160

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