19/09/2025
O que me atravessa não é só a notícia de um tiro. É a imagem–símbolo que todo cérebro busca quando o medo rasga o ar: vínculo. Na neurobiologia do apego, diante da ameaça a amígdala dispara, o corpo se contrai e a criança corre para o colo que signif**a “porto seguro”. Mesmo quando essa cena é apenas recordada, imaginada ou vista em outro contexto, ela revela um roteiro antigo: procurar abrigo na figura que nos organizou por dentro. E é aí que dói — quando o abrigo cai, a dor f**a sem tradução.
Clinicamente, isso aciona o modo “Criança Vulnerável” (Terapia dos Esquemas): abandono, imprevisibilidade, impotência. Em ACT, é o convite duro: não lutar contra a dor, mas dar-lhe contorno e transformá-la em direção — valores que apontam para proteger a vida, sustentar os pequenos e recusar a lógica da violência. Na TCC e na Psicologia por Processos, nomeamos o que o corpo faz: hipervigilância, flashes intrusivos, ciclo ameaça-busca-ruptura. Dar linguagem devolve agência.
Sistemicamente, não tombou “um indivíduo”: tombou um eixo de família, de comunidade, de projetos. A violência é sempre covarde porque mira um corpo, mas fere uma rede inteira. E, moralmente (Tomás), a ordem do amor pede duas virtudes em simultâneo: justiça que condena o mal e caridade que ampara quem ficou. Rezar pelos mortos é ato de misericórdia; consolar os vivos, também.
Então, sim: essa cena (real, lembrada ou simbólica) f**a comigo como uma ferida que chama por resposta. Que Deus acolha Charlie e conforte sua família. Que os nossos afetos não virem combustível de ódio, mas matéria de compromisso: proteger crianças, cuidar do vínculo, defender a verdade. Que a dor não nos embruteça — que nos converta.
— Requiem aeternam dona ei, Domine. E luz perpétua o ilumine. Amém.