28/11/2025
Quem me conhece sabe: desde a infância, meu cabelo (minha franja em especial) sempre foi algo “sagrado”.
Em uma certa ocasião, minha mãe me levou ao cabeleireiro. Eu expliquei o corte que queria, mas ele, sem entender muito bem, passou a máquina em tudo. Voltei para casa chorando, não querendo ir a escola no dia seguinte. Acabei indo e usei uma touca. Acho que eu estava no pré, tinha entre cinco e seis anos. Depois disso, nunca mais deixei que tocassem na minha franja.
Anos depois, quando fui aprovado no vestibular da minha primeira universidade, vivi novamente essa cena. No trote, meu cabelo foi raspado e, com ele, a franja. Era um momento de alegria, afinal, eu havia sido aprovado em uma universidade pública! Mas, ainda assim, contava os dias para que a franja voltasse a crescer. Me sentia exposto sem ela, quase que vulnerável.
Voltei a raspar o cabelo mais uma vez, anos depois, por amor e solidariedade a uma pessoa muito querida que enfrentava um desafio de saúde. Dessa vez, não me incomodei tanto. O que me abalava eram os comentários: “Você f**a igual ao seu pai quando está assim.” Aí sim, eu me incomodava (assunto de terapia, claro! Afinal, quem não tem suas questões com os próprios pais, não?).
Hoje, já não me afeta ser comparado a ele. Trago no sangue seus genes e, no coração, as boas memórias dos tempos que tivemos juntos. Já não quero excluí-lo, ao contrário, quero acolhê-lo. Aceitá-lo por quem é. Reconhecer que ele também faz parte de mim.
E assim, como não preciso rejeitá-lo, percebo que também não preciso mais da franja para me proteger. Talvez antes fosse uma defesa, um escudo. Insegurança, quem sabe?! Hoje entendo que não preciso dela para me sentir bem, para me aceitar, para gostar de mim, independentemente do que o mundo pense, afinal, cada um carrega seus próprios gostos e julgamentos.
A verdade é que, quando estamos em paz conosco, aprendemos a nos aceitar exatamente como somos.
Talvez isso seja o que chamam de amor próprio.
P.S: este texto não é apenas sobre um corte de cabelo. 🌿