08/08/2022
Faz tempo que não escrevo.
O tempo do silêncio, do aprendizado, o início da cura.
Sinto que ainda estou cicatrizando, mas já percebo algo da transformação. Ela, na verdade, é e será sempre interminável. A transformação faz parte da lei da impermanência.
Vivi muitas experiências doloridas no corpo e na alma neste último ano e para cada trinca, corte, entupimento, aprendi o quão fundamental foi respeitar esse momento, entender e acolher minhas fraquezas e colocar meu esforço em manter o espírito elevado, o bom humor.
Nem sempre consegui, mas toda vez em que me permiti, a transformação foi evidentemente para melhor. E nesse processo, o meu principal instrumento foi a música. Bem, cheguei até a cantar acompanhado com playback durante minha internação na UTI e a experiência foi mágica.
Nesta primeira semana de agosto de 22, uma boa parte de nós brasileiros levamos uma lambada ao receber a notícia da passagem do Jô Soares. Um homem que desde criança viveu a superação das suas dificuldades com a arte (contava que na escola, ao invés de "gordo", era chamado de poeta). Usou sua cultura e inteligência na arte e na comunicação. O humor foi o instrumento escolhido para exercer a cura e a transformação, não apenas de si, mas de todos aqueles que conseguiram entender e usufruir desse humor.
E assim sigo tentando lidar com essas e outras tantas impermanências.
Mas, durante uma reflexão sobre arte, música, cultura, inteligência e sensibilidade e constatar que sou um espectador da partida de tantas e tantos que admiro e amo de forma platônica por conta desses atributos, outra ferramenta me surgiu hoje, de forma tão intensa e genuína que senti algo cicatrizar e transformar. Fui tomado pela gratidão. Sim, gratidão por viver um tempo que me permitiu conhecer, ver, ouvir, aprender, curtir e me divertir com esses gênios de tantas áreas. Foi a forma como coloquei em ação a minha reverência.
E assim, descobri algo que tem o poder de transformar nossas dores e que é permanente. A gratidão é permanente. E agradeço por tudo que tenho aprendido nesta existência, pelas pessoas que conheci, conheço e virei ainda a conhecer. E também as que exercem mudanças em mim, mesmo sem sequer saber da minha existência.
Assim, obrigado! Muito obrigado, vida!!! Você é uma experiência e tanto!!!
Ralmer N. Rigoletto.