04/01/2026
Sempre reflito sobre o mal, sobretudo quando ele se manifesta em mim. Pergunto-me, com honestidade, se alguma atitude minha pode ferir alguém, difamar uma pessoa ou produzir qualquer forma de prejuízo. Quando isso acontece, reconheço: trata-se de um adoecimento da alma, de uma alienação sutil do ego que se afasta da consciência e da responsabilidade ética.
Ainda assim, minha atenção não se fixa nesse abismo. Volto-me, com insistência, para outra pergunta essencial: como ser alegre por mim mesmo, sem depender de aplausos ou validações externas? Como fazer o bem, tornar alguém um pouco mais feliz, ajudar sem alarde, crescer interiormente e me lapidar como ser humano? Essa escolha, a de pensar o bem, praticá-lo e buscar a própria melhoria, nasce de um movimento íntimo de lucidez, não de ingenuidade; é um esforço consciente de não permitir que o ego, em seus vícios de vaidade, orgulho ou ressentimento, governe minhas ações.
Diante disso, resta-me uma pergunta simples e profunda: por fim, em que isso pode incomodar?
Incomoda a vida alheia?
Incomoda aqueles que me observam?
Os que me criticam?
Os que projetam expectativas sobre mim?
Ou, talvez, os que tentam me desconstituir?
E, mais ainda, no que esse caminho pode transformar o meu próprio eu e a minha intimidade mais profunda?
Eis aí a virtude da lucidez.
É por essa via que a integridade se justifica e se sustenta à luz da civilidade humana, quando o indivíduo escolhe, com consciência, aquilo que lhe habita, aquilo que o anima e aquilo que o move, não para invadir a vida do outro, contudo, para nela transitar com respeito, sensibilidade e empatia.
Eis o ponto, eis o ganho, eis o gesto calmo e paciente de maturidade interior.
Edson Rosa.