26/04/2022
"Agora sei que o cimento da colonização já não sufoca apenas as ruas
não silencia apenas os rios
mas também acimenta o nosso peito
mesmo com cuidado e cultivo, tem partes do nosso território onde a água já não atravessa, escorre
Sinto que, nessa parte, o corpo ingere sem aproveitar os nutrientes, passa direto
por isso inundamos, por isso nos vem as enchentes nos olhos
é preciso que a água entre, rache, quebre o cimento
mas dói, dói
andar com os tamancos de cimento pesam o pé, cansam as costas, mas já andamos há tantos séculos assim que pisar na terra causa estranhamento
Na angústia parece que a dor no peito vai explodir e minar a saída
Mas lembremos que o corpo não tem começo nem fim, então nos abracemos e recordemos que somos apenas afluentes, que assim como os sentimentos vieram, virão e tornarão a ir e vir,
em espiral infinita
Antes da pedra no sapato, antes da pedra no caminho,
precisamos reconhecer: há pedaços de cimento em nós, no nosso pensamento, imaginação, nos sonhos
Contra colonizar não é colocar mais cimento nas rachaduras de si, é festejar seu desabamento."
Geni Núñez