15/12/2017
80 anos do imigrante português do Bixiga.
Não é só de imigrante italiano que é feito o bairro do Bixiga, em São Paulo, os portugueses também o ajudaram a construir.
Então, vamos contar a história do senhor Agostinho Gomes dos Santos, um homem que trabalhou muito para construir a dignidade de sua família, ancorada na panif**ação.
Aos quinze anos de idade, seu Agostinho saiu da Vila da Vieira, Distrito de Aveiro, em Portugal, numa travessia oceânica de nove dias, até chegar ao Rio de Janeiro, em 1952. Com apenas alguns “trapos” e uma Carta de Chamada ou Carta Convite em punho, escrita por sua professora em Portugal, o menino se sentia confiante para o trabalho de lavador de pratos em um bar, no Centro do Rio, cujo proprietário, irmão de sua professora, seria o responsável legal pelo garoto durante os dois anos seguidos.
Acontece que Agostinho era muito comunicativo, sem perder tempo, começou uma prosa com o seu Joaquim, durante a travessia de Portugal ao Brasil, no navio cargueiro. Nessa conversa amigável o menino se sentiu confiante para aceitar o trabalho oferecido por seu Joaquim, em seu restaurante no Rio, desatendendo ao pedido do dono do bar que nunca viu o garoto e foi obrigado a autorizar a mudança de planos. Com tudo resolvido, Agostinho trabalhou onze meses no restaurante de seu Joaquim, um tempo de intenso trabalho braçal.
Depois desse período, a saudade se transformou em uma grande vontade de rever o irmão José que vivia há dois anos em Santos, litoral de São Paulo. Não houve dúvida em sua decisão quando deu adeus ao Rio de Janeiro.
Na padaria em Santos, onde aprendeu tudo o que precisava sobre a panif**ação, tinha claro o que queria, sabia exatamente aonde queria chegar. Desde o dia em que colocou os pés no porto do Rio tinha o objetivo claro de crescer na vida. Pra isso, trabalhou incansavelmente, sem esmorecer. Algumas vezes chegou a passar fome, unicamente com o intuito de guardar dinheiro para realizar o seu grande sonho, ser dono de seu próprio negócio.
Agostinho e seu irmão trabalharam muito, queriam sair da pobreza pra fazer valer todo o esforço depositado, enquanto almejavam muito mais da vida.
Com a confiança do dono da padaria, Agostinho propôs uma parceria. Veja só, o jovem estava mesmo determinado! Ele trabalharia na padaria da madrugada até o início da tarde, depois estaria livre para entregar os pães nas casas dos fregueses. Com o negócio fechado, o jovem rapaz comprou um triciclo com as economias que fez, a freguesia cresceu e a vontade de crescer também. Com a popularidade do negócio começou a entregar flores também. Tudo fluía, mas os ganhos ainda não eram do tamanho de seu sonho.
Então, depois de três anos de intenso trabalho na padaria e com as entregas, ele decidiu vender o triciclo e a freguesia conquistada, para alugar uma casa com uma padaria. Investiu toda a sua economia e a sua energia, trabalhava dia e noite. Aos 18 anos de idade o jovem empreendedor não sabia o que era descanso, trabalhava exaustivamente.
Comprou um furgão Volkswagen, iniciou a entrega de pães em bares, o que garantiu a ampliação de suas vendas. Depois de dez anos com a padaria, vendeu tudo para morar na capital, em Penha, na zona Leste de São Paulo, onde comprou uma padaria que estava em funcionamento. Foram muitas mudanças, vendas e compras, num total de onze padarias sob sua administração, até que, em 1966, foi à falência. Um período duríssimo, confuso e sem um “vintém”. Sem perspectiva, aos 29 anos de idade, viu-se por primeira vez sem ânimo.
Foi quando apareceu um “anjo” amigo, com uma luz de oportunidade. Foi quando ele percebeu a importância da mão alheia na própria vida, coisa que um guerreiro não conta, quando põe somente em si a única forma de sobrevivência e progresso. Talvez tenha sido essa a grande lição de sua vida: a importância do trabalho em equipe. Com o apoio de seu fornecedor de farinha, uma luz se acendeu. Ele lhe falou de uma padaria que estava à venda numa esquina no bairro do Bexiga e que poderia ajuda-lo a adquiri-la. Sem querer nada em troca, ofereceu-lhe um empréstimo de 300 sacos de farinha, com 50 kg cada, mais alguns trocados. Foram suficientes para a negociação de permuta entre a padaria e o fornecedor, já que o seu Agostinho deixou tudo nas mãos do amigo. Negociação concluída, seu Agostinho iniciou imediatamente o serviço, sem acreditar muito no que sucedera. Não deu nem tempo de respirar, colocou as mãos na massa, o coração na generosidade recebida, os olhos em todos os seus colaboradores e o apoio em sua família constituída, capazes de lhe ajudarem a construir a Padaria Camões.
Já são 48 anos de muito trabalho, mas também de muito sucesso, fruto do sonho realizado, no legado de seus 80 anos de uma vida realmente vivida.
Flôr Kepah
Editora de O Paladar do Brasil
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