30/03/2026
A minha visão.
Sem ofender as diferenças ou outras opiniões.
Há uma forma de olhar para a Semana Santa que não passa por igrejas, nem por doutrinas, nem por rituais. Passa pelo espelho.
Não pelo espelho do corpo mas pelo espelho da consciência.
O chamado “Domingo de Ramos” pode ser entendido como o momento em que algo verdadeiro entra dentro de nós. Pode ser uma verdade incómoda, uma consciência mais desperta, uma lucidez que não dá mais para ignorar. E quando isso entra, nós celebramos. Sentimo-nos elevados, tocados, quase iluminados. Estendemos “palmas” no caminho ou seja, criamos um ambiente interno de aceitação, de abertura, de entusiasmo.
Mas essa abertura, muitas vezes, é superficial.
Porque poucos dias depois, aquilo que entrou para nos transformar começa a confrontar-nos. Começa a mexer nas nossas certezas, nas nossas máscaras, nas narrativas que construímos sobre nós mesmos. E é aí que acontece a viragem: o mesmo “povo interno” que celebrou… rejeita.
Não porque a verdade tenha mudado.
Mas porque ela começou a doer.
E então surge a tal “guerra” não entre pessoas, mas dentro de cada um.
A guerra entre aquilo que somos… e aquilo que percebemos que precisamos de deixar de ser.
Essa é a verdadeira Semana das Dores.
Não é apenas a dor de uma mãe a ver um filho sofrer.
É a dor de qualquer ser humano quando começa a ver, com clareza, as próprias incoerências.
É a dor de reconhecer onde falhámos, onde ferimos, onde nos enganamos e onde continuamos a insistir no erro por conforto ou medo.
E é também a dor do ego a perder espaço.
Porque perdoar aquele perdão que foi dito mesmo no meio da dor extrema não é um gesto emocional. É um estado de consciência. É quando já não há necessidade de acusar, de separar, de julgar, porque se compreende profundamente a ignorância humana.
“Perdoa-lhes” não é fraqueza.
É lucidez.
E aqui surge uma pergunta essencial:
Que dor é a nossa?
Muitas vezes dizemos que sofremos, mas o que dói não é o coração é a resistência.
Não é a ferida é o apego à identidade construída em torno dela.
Não é o acontecimento é a interpretação que fazemos dele.
E por isso comparamos dores. Competimos em sofrimento. Defendemos a nossa dor como se fosse um território. Mas no momento em que verdadeiramente entramos na experiência do outro, algo quebra dentro de nós: a certeza de que somos o centro.
Porque a dor, no fundo, é universal.
O que muda é a forma como cada um a vive, a interpreta e a transforma.
E talvez seja aqui que a história dos “ladrões” ganha um signif**ado ainda mais profundo:
não importa o passado, não importa o rótulo importa o estado de consciência naquele instante.
Há mais verdade num momento de reconhecimento sincero do que em anos de exaltação vazia.
Por isso, quem tem mais “valor”?
Aquele que nunca caiu… ou aquele que caiu, viu, e transformou-se?
A resposta não está na moral.
Está na consciência.
E talvez seja esse o verdadeiro convite desta semana:
Não celebrar uma história.
Mas vivê-la internamente.
Observar onde, dentro de nós, ainda aplaudimos aquilo que depois rejeitamos.
Onde dizemos “sim” com a boca, mas “não” com as ações.
Onde queremos transformação… mas apenas se ela não nos obrigar a mudar.
Porque deixar “entrar” não é um momento.
É um processo.
E sustentar essa presença seja ela verdade, consciência ou amor exige coragem.
Exige atravessar a dor sem fugir dela.
Exige abdicar do controlo.
Exige humildade.
No fim, não se trata de religião.
Trata-se de honestidade interior.
Célia Pereira Todos os Direitos reservados.
Uma abençoa semana pontinhos de luz deste universo maravilhoso.