03/12/2024
Katia Bonfanti
Psicóloga e terapeuta sistêmica
Havia uma voz, que silenciou há muito tempo. Dizia-me: dormir além de oito horas é encurtar a vida. Essa voz, talvez, soubesse do próprio fim. Morreu aos trinta e nove, e eu me pergunto se ela pressentia. O que me conforta é saber que esteve disposta a viver cada instante como se fosse infinito, numa vida finita e curta.
No último sábado, dormi além das oito horas. Cheguei tarde ao Mercado. Não que isso seja não viver, mas penso que poderia ter sentido mais o calor macio da manhã de outono, os vinte e dois graus abraçando o dia como quem segura algo precioso. As ruas já estavam cheias de gente, mãos carregando ramos de eucalipto, flores que lembram repolhos arroxeados, tulipas que se abrem como promessas sussurradas ao vento.
Tantas coisas escaparam entre os milésimos de segundos. Poderia ter sentido o perfume do pão saindo do forno de barro, ainda quente, seu v***r dançando no ar fresco da manhã. Talvez os dióspiros mais doces estivessem ali, esperando por mim, prontos para explodir em doçura. Mas é só uma questão de perspectiva, talvez de tempo. Porque, no fundo, tudo estava ali, de alguma forma, mesmo que eu tivesse chegado depois.
Quando os ponteiros do relógio tocaram onze horas e um quarto, entrei no Mercado. Encontrei o senhor Carlos despedindo-se de Pedro, o copo de ginjinha vazio sobre a mesa, um vestígio da manhã que lhe aquecia o peito. Seus olhos, esverdeados, embaraçados pela idade, carregavam uma saudade velada. Ele comentou, quase casualmente, que a mulher já não conseguia andar sem perder o ar. Pequeno em estatura, mas com uma voz que ocupava os cantos, o senhor Carlos me esperava com expectativa, risonho e acolhedor.
Ele vem sempre ao Salgados do Fundão. É um hábito dele, agora também meu — parte dessa tentativa de ser inteira em Portugal. Não sou só eu. Há muitos de nós, imigrantes espalhados como frutas diversas nas bancas. Cada canto do Mercado da Vila carrega um pouco de quem somos.
Entre os cheiros de chocolate, leitão, pizza italiana e os queijos de cá e de lá, há sempre o Fundão. Na mesa alta improvisada, falamos de tudo e mais um pouco: comida, invernos, falta de ar, passados que nunca somem e futuros que não sabemos se virão.
O senhor Carlos fala muito de Garrincha. Jogou no Sporting, mas tem um amor fervoroso pelo Chelsea. Apesar de uma ligação quase fraterna com a Inglaterra, Portugal é sua casa. Mostra-me, com o entusiasmo de um menino, como gingava no campo. “Outros tempos, outros tempos! Um tempo em que o futebol era menos dinheiro e mais garra”, diz ele, com o brilho nos olhos de quem revive a glória de cada drible.
Inspirado pelo “Anjo das Pernas Tortas”, ele quase me faz ver Garrincha em campo: os movimentos imprevisíveis, o olhar astuto, a alegria de jogar por jogar. No fundo, há algo de Brasil no senhor Carlos — não só no futebol, mas na abertura calorosa para conversas e no jeito de transformar o ordinário em extraordinário.
Logo ele se despede, apressado. Diz que é hora de fazer carapaus grelhados para a companheira. Fala disso com a reverência de quem executa um ritual sagrado, pequeno, mas cheio de amor, tão essencial quanto o ar que ela luta para manter. Quando o vejo desaparecer na multidão do Mercado, algo em mim se desacomoda. Não era só ele quem voltava para casa, para o calor do fogão e a companhia de um respirar que já falha.
Era eu que ficava. Como as flores na banca, como o pão que já não está quente, como a marca de café desenhada na chávena. Olhando ao redor, percebo nos detalhes uma sutil nostalgia. Aqueles momentos haviam sido únicos. Estamos sujeitos a partidas únicas – instantes suspensos no meio da pressa do mundo.
Talvez fosse isso que ela quis dizer, tantos anos atrás, quando falou em encurtar a vida. Não era sobre as horas dormidas, mas sobre o que fazemos com os momentos que nos restam acordados. Que cada segundo possa ser infinito, porque, no fundo, ele pode mesmo ser o mais bonito. Vamos ao Mercado!