Intelier Maria Peixoto

Intelier Maria Peixoto Perdas| Doença |Finitude
Acolhimento, compreensão e autodeterminação em momentos de dor e fragilidade

Achamos que, quando a fase ativa do tratamento acabar, o pior vai ter passado. Que vamos sentir alívio e poder voltar ao...
04/03/2026

Achamos que, quando a fase ativa do tratamento acabar, o pior vai ter passado. Que vamos sentir alívio e poder voltar ao 'normal'.

Só que, na maior parte das vezes, não é exatamente isso que acontece, pelo menos não tão rápido, nem tão linear.

Até ali andávamos ocupados e focados entre exames, tratamentos e a gerir efeitos secundários. Sabíamos o que fazer. Tínhamos um plano, uma direção e objetivos claros - terminar os tratamentos e f**armos livres do cancro.

Agora os tratamentos estão concluídos, a agenda médica está mais liberta, mas não é simples voltar ao que era. F**a um vazio.

Não nos sentimos prontos.
Alguns efeitos secundários persistem.
O cansaço ainda não deu tréguas.
E já não somos os mesmos.

Durante os tratamentos, muita tristeza, raiva, dor f**am contidas porque não há tempo nem espaço para as sentir plenamente. Porque é preciso continuar e fazer o que tem de ser feito. Mas no fim, é comum elas começarem a vir à tona.

O medo da recidiva é real e passa a ser uma companhia frequente.
Monitorizamos atentamente o corpo, duvidamos de qualquer alteração/ sensação e questionamo-nos se o cancro terá voltado ou alastrado.

Pode parecer contraditório, mas muitas vezes é quando o tratamento acaba que nos vamos mais abaixo emocionalmente.

Somos sobreviventes, estamos livres do cancro. Mas precisamos descobrir como viver depois dele.

O que implica integrar toda a experiência na nossa história. Reconstruir identidade, confiança e, muitas vezes, redefinir projetos.
Implica aceitar que não voltamos exatamente à pessoa que éramos e descobrir quem queremos ser agora.

Fez dia 28 de fevereiro um ano que fiz a última sessão de radioterapia e terminei os tratamentos. Esperava sentir um cer...
02/03/2026

Fez dia 28 de fevereiro um ano que fiz a última sessão de radioterapia e terminei os tratamentos.

Esperava sentir um certo alívio, uma certa alegria que, confesso, foram quase inexistentes na altura.

A minha cabeça insistia em dizer-me "já acabou, devias estar feliz, já podes voltar ao normal" e comparava-se com quem parecia ter simplesmente retomado de onde tinha parado.

Só que não era como eu me sentia. Continuava cansada, a ter de lidar com os efeitos secundários - da quimio, da rádio, da hormonoterapia - e a precisar digerir tudo o que tinha vivido naquele ano.

Não é porque o tratamento acaba que os impactos físicos, emocionais e existenciais que o cancro traz desaparecem.

Pelo contrário, veio uma onda de tristeza, um luto do que tinha perdido no processo e memórias de momentos que ainda doíam.
Veio um período de confusão e indefinição, sobre como viver e quem ser agora.

E eu, mesmo com a cabeça a querer avançar rápido, dei-me tempo e espaço.
Para cuidar do que doía.
Para integrar as perdas.
Para me adaptar à nova realidade.
Para descobrir novos sentidos e criar as fundações de quem eu precisava ser depois do cancro.

A seu tempo, o alívio e a alegria vieram.
E um novo 'normal' também.

Podemos enlutar por diferentes perdas.  Por morte, separação, infertilidade, doença, ou qualquer outra mudança, mesmo qu...
20/02/2026

Podemos enlutar por diferentes perdas. Por morte, separação, infertilidade, doença, ou qualquer outra mudança, mesmo que tenha sido escolhida ou desejada.

Qualquer que seja o luto, ele não obedece a uma determinada forma 'certa', a um determinado calendário e a uma determinada expressão considerada adequada. Ele não tem regras.

Cada luto tem as suas particularidades, as suas nuances, os seus contornos próprios.
E cada pessoa atravessa-o à sua maneira, com a sua história, as suas vulnerabilidades, os seus recursos e os seus limites.

Não existem dois lutos iguais.

Uns manifestam-se no corpo, outros parece que o anestesiam.
Uns são mais sonoros, enraivecidos, outros mais silenciosos, vividos apenas internamente.
Uns trazem a culpa, ou o peso das perguntas sem resposta, do que ficou por dizer ou fazer. Outros trazem alívio, ou o impulso de avançar.
Uns pedem companhia, distração, movimento, outros pedem sossego, solidão ou tempo.

Na maioria das vezes, é o mesmo luto que, em momentos diferentes, vai pedindo coisas diferentes, ao seu próprio ritmo.

E é essa singularidade que nos orienta em como podemos acolher e integrar o luto.
É a forma como o ele se apresenta e se expressa que nos guia em como o podemos acomodar.

Por isso precisamos olhar para o nosso luto, reconhecê-lo, validá-lo, compreendê-lo. Em verdade, em segurança e amparados.

Há um tipo de luto bem subtil mas insidioso que começa com um diagnóstico. Começa nas salas de exames e nos gabinetes mé...
18/02/2026

Há um tipo de luto bem subtil mas insidioso que começa com um diagnóstico.

Começa nas salas de exames e nos gabinetes médicos, nas conversas que não queremos ter de ter, nas palavras que pesam e não nos largam.
Começa quando percebemos que o que era antes não será mais.

A doença chega e vivemos a perda da realidade que havia antes dela.
Uma perda ainda indefinida, sem contornos exatos, envolta em incerteza. Mas bem real.

Uma perda em todas as mudanças que não desejamos, nos projetos ou expectativas que vamos precisar reajustar, na imagem estranha que nos olha de volta no espelho.

Para os outros até podemos parecer os mesmos. Podemos até ouvir que estamos 'com bom aspecto' ou que nem parecemos doentes. Mas por dentro sabemos que somamos muitas perdas pelo caminho.

É um luto silencioso pelo corpo que não responde como antes, pela vida que precisou de ser reajustada, pela parte de nós que ficou lá atrás.

Um luto que muitas vezes f**a por reconhecer mas que também merece ser visto e cuidado.

A vida traz perdas. A morte de alguém. O fim de uma relação. Uma perda gestacional. A perda de saúde. De capacidades. Mu...
14/02/2026

A vida traz perdas.

A morte de alguém. O fim de uma relação. Uma perda gestacional. A perda de saúde. De capacidades. Mudanças de casa. De trabalho...

Nem todas são reconhecidas ou validadas - pelos outros e até por nós próprios.

Mas não existem umas perdas mais 'válidas' do que outras. Não existe uma forma 'certa' de viver o luto. Nem existe um tempo determinado durante o qual é aceitável sofrer.

Comentários e ideias pré.concebidas sobre o que é uma perda 'válida' e sobre a forma 'adequada' de a viver têm muito impacto na maneira como atravessamos estes momentos.

Quando a perda é desvalorizada ou julgada, f**amos a sentir-nos mais sozinhos, incompreendidos e como se existisse algo de errado connosco.

No Intelier Aberto de 22 Fevereiro vamos falar sobre o impacto do não reconhecimento e da invalidação nas perdas e sobre criar espaços onde a dor pode existir.

Das 15h30 às 17h.
No Intelier - Guimarães.

Evento GRATUITO, mediante inscrição - no link na bio.

Eventos gratuitos. No último domingo de cada mês o Intelier abre as portas para conversarmos sobre dor, fragilidades, pe...
13/02/2026

Eventos gratuitos.

No último domingo de cada mês o Intelier abre as portas para conversarmos sobre dor, fragilidades, perdas, doença, morte ou luto.

Estes são temas que fazem parte da experiência humana e que, em diferentes momentos e de diferentes formas, todos atravessamos.

O Intelier Aberto é um momento de partilha de conhecimento, de vivências e de diferentes perspetivas, aberto a qualquer pessoa que se interesse por estes temas. Quer esteja a vivê-los na primeira pessoa, a acompanhar alguém ou simplesmente a querer compreendê-los melhor.

Estas conversas são pensadas como um espaço seguro, compassivo, acolhedor e informal onde é possível escutar, refletir e - apenas para quem quiser - partilhar.

Eu estarei a orientar o Intelier Aberto, fazendo uma breve introdução ao tema e conduzindo o espaço de reflexão e partilha.

O tema específico de cada mês é definido antecipadamente e a participação é gratuita, apenas necessita de inscrição - por mensagem ou através do formulário disponível no link da bio.

Local - Intelier, Penha - Guimarães
Horário - Das 15h30 às 17h00.

O meu corpo ainda guarda a memória. O peito inchado, deformado e o braço imóvel da hemorragia interna que alastrava. For...
09/02/2026

O meu corpo ainda guarda a memória. O peito inchado, deformado e o braço imóvel da hemorragia interna que alastrava. Foram 6 horas à espera de uma cirurgia de urgência.

Momentos potencialmente traumáticos.
Dos quais ficou a recordação, mas não o trauma.

E não ficou porque tive alguém que viu, validou e amparou durante todo o turbilhão e depois.

Há um momento que me marcou especialmente - no dia a seguir a minha irmã entra no quarto do hospital e emociona-se.

Naquele instante eu senti-me vista e acompanhada no tamanho do susto que vivi.
Ali eu vi reconhecida, validada, valorizada toda a dor e medo que tinha sentido, que ainda estava a sentir.
Era real o que eu passei e foi testemunhado por ela. Eu não estava sozinha, nem fisica nem emocionalmente.

E isso facilitou a elaboração interior do que tinha acontecido.

Porque a validação e o amparo oferecem segurança ao nosso sistema interno, permitindo que a dor seja sentida, processada e, aos poucos, reorganizada após o choque.

É esta presença que transforma experiências potencialmente traumáticas em apenas momentos de dor, envoltos em cuidado e amor.

E mesmo quando, por razões diversas, ninguém testemunha compassivamente o acontecimento potencialmente traumático ou logo depois, ainda é possível transformar a forma como o nosso sistema interno guardou essa experiência — e a dor que lá ficou.

Esse é também parte do acompanhamento que faço no Intelier.

Falamos muito sobre práticas de autorregulação emocional que, claro, são válidas e cumprem uma função importante. Mas, d...
03/02/2026

Falamos muito sobre práticas de autorregulação emocional que, claro, são válidas e cumprem uma função importante.

Mas, diante de situações duras - como uma doença grave, o fim de vida ou o luto - muitas vezes elas são simplesmente insuficientes. E isso não signif**a que estejamos a falhar.

O problema não está em nós. Está na ideia de que é suposto conseguirmos tudo sozinhos, quando o nosso sistema nervoso está programado para se regular em comunidade e interdependência.

Mesmo na idade adulta continuamos a precisar de co-regulação. Continuamos a precisar de alguém que seja porto seguro, que testemunhe e ampare a nossa dor, as nossas perdas, os nossos medos.

Relações verdadeiramente seguras ajudam o cérebro a reorganizar-se depois de diagnósticos avassaladores, de tratamentos exaustivos, de perdas sucessivas.
Ajudam a acalmar, conectar, a reflectir e decidir.

Colocar todo o peso da regulação emocional na capacidade de nos regularmos sozinhos é um reflexo da sociedade hiper independente em que vivemos. Onde a narrativa da autossuficiência nos desconecta da forma como como, biologicamente, fomos feitos para funcionar.

Precisamos de uma comunidade capaz de acolher compassivamente tudo o que a doença grave, o fim de vida e o luto trazem. Porque a ausência dessa rede de apoio tem um impacto signif**ativo no nosso bem-estar emocional.

Olá, eu sou a Maria. Sou Psicóloga desde 2009 mas criei o Intelier depois de um processo oncológico que me fez encarar e...
03/02/2026

Olá, eu sou a Maria.

Sou Psicóloga desde 2009 mas criei o Intelier depois de um processo oncológico que me fez encarar e aprofundar a minha relação com a doença, com as perdas e com a mortalidade.

Percebi na pele a necessidade de espaços não clínicos para acolher, sustentar e capacitar o que se vive do lado de dentro destes momentos.

Acredito que as experiências difíceis têm a capacidade de nos transformar. Que podemos vivê-las com vulnerabilidade, integridade e coragem. E que, a par da confusão, da dor, das perdas, pode existir também autodeterminação, crescimento e beleza.

Integrando estes opostos criamos em nós espaço para experienciar a complexidade da vida & acolhermos a sua imperfeição.

Aqui encontras reflexões e partilhas sobre perdas, doença e finitude porque se fala pouco de como podemos atravessar ou acompanhar alguém nos momentos mais crus e vulneráveis.

Se de alguma forma estes temas te tocam ou despertam, então este espaço é para ti. 😊

O Intelier é um espaço para cuidar do que acontece do lado de dentro em momentos de dor, fragilidade e perdas. É um atel...
03/02/2026

O Intelier é um espaço para cuidar do que acontece do lado de dentro em momentos de dor, fragilidade e perdas.

É um atelier de exploração interior onde olhamos para as nossas vivências internas tais como são - não como algo que precisa ser corrigido, mas como algo que precisa de um espaço para ser escutado, visto, compreendido.

Debruçamo-nos sobre a adaptação à doença e às perdas.
Exploramos emoções intensas ou contraditórias, mudanças indesejadas, decisões complexas e conversas difíceis.
Aprofundamos inquietações relacionadas com o sentido da vida, a incerteza, a finitude e o sofrimento.

Tanto para quem atravessa a doença, a perda ou a finitude na primeira pessoa, como para quem cuida ou acompanha alguém próximo nestes processos.

O propósito é o de acolher e sustentar as experiências difíceis.
É o de ser suporte, segurança e estrutura a partir da qual a pessoa pode aceder ao que precisa para atravessar melhor a situação com que se depara.

Porque é possível encontrar compreensão, direção e autodeterminação mesmo nos momentos mais duros e vulneráveis.

Face à fragilidade e mortalidade do outro, é comum sentirmo-nos impotentes.Impotentes para mudar o desfecho, impotentes ...
25/08/2025

Face à fragilidade e mortalidade do outro, é comum sentirmo-nos impotentes.
Impotentes para mudar o desfecho, impotentes perante a degradação, a dependência ou o desconforto do outro. Impotentes perante a sua frustração, raiva ou tristeza.

Ninguém nos prepara para testemunhar a morte e quando nos deparamos com ela - sem a podermos corrigir, alterar ou suavizar - percebemos que não temos ferramentas nem recursos. Não sabemos como estar, nem como apoiar. Não sabemos o que é possível fazer.

Mas o que, em qualquer circunstância, podemos fazer é estar presentes. Não apenas de corpo presente, mas verdadeiramente presentes. Não com a intenção de salvar ou mudar a realidade do outro, mas para que se sinta acompanhado na dor - ao invés de sozinho nela.

Não precisamos de ter respostas, não precisamos de ter as palavras 'certas' que vão fazer o outro sentir-se melhor.

A maioria das vezes só precisamos dar-lhe espaço para partilhar o que pensa e o que sente - especialmente as suas dúvidas, medos, raiva, confusão. Só precisamos dar-lhe espaço para o seu processo, ouvindo o que emerge.

Porque ouvir o outro é dar-lhe espaço para existir inteiro. E isso faz com que se sinta visto, apoiado, seguro. Mesmo diante das circunstâncias mais desafiadoras.

É simples e por vezes é muito difícil também. Porque somos humanos e isso mexe connosco - com os medos, dúvidas e assuntos por resolver de quem quer acompanhar e suportar.
Ter apoio para poder ser apoio faz toda a diferença.

Tive uma conversa incrível com a minha avó de 90 anos. Falámos sobre a possibilidade da morte, falámos de arrependimento...
24/08/2025

Tive uma conversa incrível com a minha avó de 90 anos.

Falámos sobre a possibilidade da morte, falámos de arrependimentos na vida, falámos de dores do passado que ainda se fazem presentes.

E eu honrada por ser guardiã desse legado de histórias e aprendizagens.

Lisonjeada por testemunhar e acolher o processo de revisão de vida que estava a ocorrer nela.

E enternecida pela oportunidade de verdadeira conexão e intimidade.

É mesmo bonito o que pode acontecer quando estamos presentes e disponíveis para acolher as conversas difíceis.

Não estive no papel de psicóloga, estive no lugar de neta.
E quando nos despedimos era inegável a leveza que senti nela e impagável a sensação de realização que trouxe comigo.

Endereço

Guimarães

Website

https://mariaalvespeixoto81.wixsite.com/intelier, https://www.instagram.com/i

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