04/03/2026
Achamos que, quando a fase ativa do tratamento acabar, o pior vai ter passado. Que vamos sentir alívio e poder voltar ao 'normal'.
Só que, na maior parte das vezes, não é exatamente isso que acontece, pelo menos não tão rápido, nem tão linear.
Até ali andávamos ocupados e focados entre exames, tratamentos e a gerir efeitos secundários. Sabíamos o que fazer. Tínhamos um plano, uma direção e objetivos claros - terminar os tratamentos e f**armos livres do cancro.
Agora os tratamentos estão concluídos, a agenda médica está mais liberta, mas não é simples voltar ao que era. F**a um vazio.
Não nos sentimos prontos.
Alguns efeitos secundários persistem.
O cansaço ainda não deu tréguas.
E já não somos os mesmos.
Durante os tratamentos, muita tristeza, raiva, dor f**am contidas porque não há tempo nem espaço para as sentir plenamente. Porque é preciso continuar e fazer o que tem de ser feito. Mas no fim, é comum elas começarem a vir à tona.
O medo da recidiva é real e passa a ser uma companhia frequente.
Monitorizamos atentamente o corpo, duvidamos de qualquer alteração/ sensação e questionamo-nos se o cancro terá voltado ou alastrado.
Pode parecer contraditório, mas muitas vezes é quando o tratamento acaba que nos vamos mais abaixo emocionalmente.
Somos sobreviventes, estamos livres do cancro. Mas precisamos descobrir como viver depois dele.
O que implica integrar toda a experiência na nossa história. Reconstruir identidade, confiança e, muitas vezes, redefinir projetos.
Implica aceitar que não voltamos exatamente à pessoa que éramos e descobrir quem queremos ser agora.