26/01/2022
Há tempos recebi um elogio sobre um texto que escrevi. Em vez de o desfrutar, desvalorizei-o dizendo à pessoa que “aposto que diz isso a todos os autores”. Meio a sério, meio a brincar, devolvi uma prenda que me deram, ao interpretar o elogio como uma forma de me manter satisfeita.
Do outro lado a pessoa entrou na brincadeira dizendo que se sentia ofendida para logo a seguir desfazer a suposta ofensa com os argumentos que apoiavam o seu elogio.
Quando li “a parte da ofensa” confesso que gelei. Ao devolver a “prenda” poderia de facto ter ofendido quem tinha sido generoso comigo.
Daí nasceu a ideia de escrever sobre a importância de receber elogios, aliada à dificuldade de percebermos o que, no nosso quotidiano, é efetivamente bom ou positivo.
🧠Não sabemos receber elogios (eu incluída) e, quando estamos a viver algo de bom surge uma vozinha lá no fundo a dizer “cuidado porque alguma coisa está prestes a correr mal” ou, como diz o povo, “quando a esmola é muita o pobre desconfia”.
Mas porquê esta pressa de sair do momento bom? 🤔
Talvez aquilo que nos falte seja conhecimento sobre o que são as emoções agradáveis e a importância de cada uma na nossa sobrevivência.
🧠A psicologia começou por estudar os mecanismos comportamentais, introduziu mais tarde os mecanismos racionais, sendo que só mais recentemente as emoções ganharam estatuto para serem estudadas de forma autónoma.
Os primeiros estudos centraram-se nas emoções desagradáveis devido principalmente a três aspetos:
1. As emoções desagradáveis (ED) aparecem em maior número que as agradáveis, numa proporção de 3 ou 4 para 1, consoante os autores;
2. Os problemas exigem atenção e sendo as ED em maior número também provocam mais problemas. Basta pensar na ansiedade, medo ou tristeza para entender o seu impacto na saúde mental;
3. Os modelos criados para explicar o funcionamento de ED não servem para explicar as emoções agradáveis (EA). E, assim, torna-se difícil compreender a sua essência.
📝Foi do trabalho realizado a partir dos anos 90 do século passado, principalmente por Barbara Frederickson, que se identificou uma das grandes diferenças entre ambas:
As ED (emoções desagradáveis) estreitam o foco de atenção para agirmos de forma rápida e imediata, uma vez que, face a um perigo, temos simplesmente de nos proteger.
Pelo contrário, as EA (emoções agradáveis) surgem em momentos de segurança e ampliam o nosso foco de atenção, permitindo expandir a nossa visão do mundo, conceber novas formas de resolver problemas ou, simplesmente, assimilarmos o que aprendemos.
✨Exemplo disso é um comportamento comum aos mamíferos: brincar.
Só ocorre em situações de segurança e muitas vezes serve de ensaio para a aquisição de competências que podem ser usadas no futuro.
Assim, as emoções agradáveis enriquecem-nos no presente e equipam-nos com uma expansão intelectual, física e social, tornando-nos mais resilientes a longo prazo.
🧠Como seres racionais procuramos significado em tudo…Hoje atribuímos significado de outras formas, através de rituais, onde se inclui a celebração do Ano Novo.
Sim, é verdade, o ano novo é só uma mudança de dia, tudo o resto continua na mesma…ou não. É indispensável dedicarmos tempo a avaliar o caminho que fizemos até ao presente e para onde desejamos ir por forma a evitar o eventual vazio que se possa instalar e roubar significado às nossas conquistas, relações e ações.
✨As nossas mudanças estão mais perto do processo da lagarta e da borboleta: há um tempo entre uma e outra, não adiantando abrir o casulo antes de tempo. Para evitar as fases pastosas (entre a lagarta e a borboleta) proponho-lhe a abordagem PPP – Pequenos, Poucos e Possíveis:
Pequenos: é mais fácil introduzir pequenas mudanças no dia a dia do que fazer algo radical. Em vez de se inscrever no ginásio e dizer que é para ir todos os dias, coloque a fasquia em “uma vez por semana é fantástico, duas por mês é melhor que nada”;
Poucos: as nossas vidas estão cheias de solicitações e encaixar coisas novas implica organização e energia. Em vez de pensar que pode mudar toda a sua dinâmica de casal marcando sessões de terapia, passar dois fins-de-semana românticos por mês fora de casa e ainda conseguir ver as séries que tem na sua lista para passar “mensagens encapotadas” à sua cara metade, pode optar apenas por uma delas e perseguir ferreamente a sua concretização;
Possíveis: os grandes objetivos inspiram-nos, sem dúvida, mas apreciar o que de bom nos acontece alimenta-nos em doses diárias. Dê espaço à integração de tudo o que de bom já se encontra presente na sua vida. Essa integração exige disponibilidade para absorver e sentir a sensação agradável associada. Assim, ao longo do ano, vai fortalecendo o seu bem-estar o que a/o prepara para os momentos em que pode concretizar o grande sonho ou aproveitar a oportunidade imperdível.