19/02/2026
O Rastro das Vidas Cruzadas
Há quanto tempo...
Os cadernos e as letras
adormeceram ausentes
de um inverno arrumado.
Príncipes e fadas soltaram as mãos,
deixaram de ser destino ou assombro,
para serem apenas um eco de um livro
que o tempo parou de contar.
As casas redesenharam-se em tons de agora,
em gestos que fluem numa nova cadência;
redescobrem o espaço e inventam
um novo modo de habitar.
Os brinquedos, outrora vivos de riso,
são agora cidades mudas em caixotes.
Dormem num empilhar de tempos imprecisos,
guardados na penumbra do esquecimento.
Já não há o apelo que a porta anuncia,
o nome da mãe ficou suspenso no ar.
O regresso faz-se agora num passo lento,
num silêncio que cresce e se faz maior.
A casa ainda é o porto, o chão seguro,
mas o mundo lá fora, vasto e futuro,
é um desafio onde o céu se faz sonho
e se percorre.
Escutamos o silêncio em gabinetes,
acalentando anseios em cada palavra.
Mas um dia, bem o sabemos, fecham-se
as portas, as luzes apagam-se.
As mães e os meninos levam consigo
a voz que se inventa, são sombras de luz
num avesso de vidas cruzadas.
O horizonte devolve-lhes o olhar e o caminho:
o traço seguro de quem aprende a ser.
Enquanto em mim, a vida se renova,
na luz desmedida de um novo dia.
Marta Baltar