17/02/2026
🔶“Eu não tinha para onde ir.”🔶
Há dias ouvi uma senhora que esteve casada décadas , dizer-me algo que ficou a ecoar…
Ao longo da conversa, quis perceber como tinha sido, para ela, viver aquele casamento ao longo dos anos. Perguntei-lhe como sentia que tinha sido a relação.
Confesso que esperava uma resposta onde coubessem momentos emocionalmente gratificantes e também as fases mais exigentes próprias de um vínculo construído no tempo, que atravessa tensões, ajustamentos e desafios inevitáveis do ciclo de vida.
Mas ela respondeu com uma frase simples:
“Eu não tinha para onde ir.”
Não descreveu intimidade, crescimento ou parceria. Descreveu ausência de alternativa percebida. Descreveu medo.
Medo da instabilidade.
Medo do julgamento social.
Medo da vulnerabilidade económica.
Medo de não conseguir reorganizar a própria vida.
Permaneceu décadas.
O marido faleceu. E aquilo que hoje a mobiliza emocionalmente não é apenas o luto pela perda do marido. É a culpa!
A culpa de não ter exercido a própria agência quando ainda havia tempo para decidir diferente.
Do ponto de vista clínico, esta narrativa é mais comum do que gostaríamos de admitir.
Muitas relações mantêm-se não por vínculo seguro ou escolha renovada, mas por constrangimentos internos e externos que reduzem a perceção de liberdade.
A dependência financeira, o contexto cultural, os filhos, a vergonha social e o medo do desconhecido activam mecanismos profundos de conservação: o sistema nervoso tende a preferir o sofrimento previsível à incerteza.
Há uma distinção essencial entre permanecer por decisão consciente e permanecer por paralisia.
Quando a permanência é sustentada pelo medo, o custo psicológico raramente é imediato. Ele instala-se de forma cumulativa com micro-renúncias sucessivas da voz, do desejo, da autonomia e, por vezes, da identidade.
Anos depois, o sofrimento não se limita ao que foi vivido. Surge também o luto pelo que não foi possível viver.
Não se trata de romantizar a saída nem de patologizar a permanência.
Existem casamentos que atravessam crises, reorganizam padrões relacionais e se tornam espaços de maturidade e intimidade genuína. E existem contextos onde sair é objetivamente complexo, arriscado ou inviável naquele momento.
A questão central é outra:
Permaneço porque escolho ou porque não acredito que posso escolher?
A liberdade não é apenas uma condição externa. É uma experiência interna de agência.
Quando essa experiência nunca se consolidou, o luto torna-se duplo: pela pessoa que partiu e pela versão de si que ficou suspensa 🥲
Partilho esta reflexão com autorização da própria, que acolheu a ideia de transformar a sua experiência numa oportunidade de pensar sobre o tema.
Um abraço 🧡