07/01/2026
Durante anos, a clozapina foi vista apenas como opção para esquizofrenia resistente, mas dados de longo prazo mostram que seu impacto vai além do controlo de sintomas.
Segundo 𝐕𝐞𝐫𝐦𝐞𝐮𝐥𝐞𝐧 𝐞𝐭 𝐚𝐥. (meta-análise, Schizophrenia Bulletin), 𝟐𝟒 𝐞𝐬𝐭𝐮𝐝𝐨𝐬 𝐥𝐨𝐧𝐠𝐢𝐭𝐮𝐝𝐢𝐧𝐚𝐢𝐬 com mais de 𝟐𝟏𝟕 𝟎𝟎𝟎 𝐩𝐚𝐜𝐢𝐞𝐧𝐭𝐞s e registraram 𝟏 𝟑𝟐𝟕 𝐦𝐨𝐫𝐭𝐞𝐬, indicando que o 𝐮𝐬𝐨 𝐜𝐨𝐧𝐭í𝐧𝐮𝐨 𝐝𝐞 𝐜𝐥𝐨𝐳𝐚𝐩𝐢𝐧𝐚 𝐫𝐞𝐝𝐮𝐳 𝐞𝐦 ~𝟒𝟒 % 𝐨 𝐫𝐢𝐬𝐜𝐨 𝐝𝐞 𝐦𝐨𝐫𝐭𝐞 em comparação a outros antipsicóticos (razão de taxas = 0,56; IC 95 %: 0,36–0,85), mesmo entre pacientes com perfil clínico mais grave.
Esses achados são reforçados por um 𝐞𝐬𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐨𝐛𝐬𝐞𝐫𝐯𝐚𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚𝐥 𝐝𝐞 𝟏𝟔 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐧𝐨 𝐁𝐫𝐚𝐬𝐢𝐥 (𝐔𝐅𝐌𝐆), que mostrou menor mortalidade em pacientes tratados com clozapina versus 𝐫𝐢𝐬𝐩𝐞𝐫𝐢𝐝𝐨𝐧𝐚, 𝐨𝐥𝐚𝐧𝐳𝐚𝐩𝐢𝐧𝐚 ou 𝐪𝐮𝐞𝐭𝐢𝐚𝐩𝐢𝐧𝐚. O efeito foi mais expressivo em grupos de risco: 𝐢𝐝𝐨𝐬𝐨𝐬 sem clozapina apresentaram 𝟓𝟒 % 𝐦𝐚𝐢𝐨𝐫 𝐫𝐢𝐬𝐜𝐨 𝐝𝐞 𝐦𝐨𝐫𝐭𝐞, enquanto 𝐚𝐝𝐮𝐥𝐭𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐭𝐢𝐯𝐞𝐫𝐚𝐦 𝟐𝟏 % 𝐦𝐚𝐢𝐨𝐫 𝐫𝐢𝐬𝐜𝐨.
Os autores são claros: a clozapina exige 𝐦𝐨𝐧𝐢𝐭𝐨𝐫𝐢𝐳𝐚çã𝐨 𝐫𝐢𝐠𝐨𝐫𝐨𝐬𝐚, devido a 𝐞𝐟𝐞𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐡𝐞𝐦𝐚𝐭𝐨𝐥ó𝐠𝐢𝐜𝐨𝐬, e não foi possível estabelecer uma relação causal direta única entre o fármaco e a redução da mortalidade. A associação provavelmente reflete melhor 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐨𝐥𝐨 𝐝𝐞 𝐬𝐢𝐧𝐭𝐨𝐦𝐚𝐬 𝐠𝐫𝐚𝐯𝐞𝐬, 𝐫𝐞𝐝𝐮çã𝐨 de 𝐫𝐞𝐜𝐚í𝐝𝐚𝐬, 𝐝𝐢𝐦𝐢𝐧𝐮𝐢çã𝐨 de 𝐚𝐠𝐫𝐞𝐬𝐬𝐢𝐯𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 e 𝐢𝐦𝐩𝐮𝐥𝐬𝐢𝐯𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞, 𝐦𝐚𝐢𝐨𝐫 𝐚𝐝𝐞𝐬ã𝐨 ao 𝐭𝐫𝐚𝐭𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 e 𝐩𝐞𝐫𝐟𝐢𝐥 𝐟𝐚𝐫𝐦𝐚𝐜𝐨𝐥ó𝐠𝐢𝐜𝐨 ú𝐧𝐢𝐜𝐨, resultando em 𝐦𝐞𝐥𝐡𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐝𝐞𝐬𝐟𝐞𝐜𝐡𝐨𝐬 de 𝐥𝐨𝐧𝐠𝐨 𝐩𝐫𝐚𝐳𝐨.
Estes dados reforçam um princípio fundamental da farmacoterapia em saúde mental: a escolha do psicofármaco influencia não apenas sintomas, mas também desfechos críticos ao longo da vida.
ℹ - 𝐂𝐫é𝐝𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐂𝐨𝐧𝐭𝐞ú𝐝𝐨:
• Vermeulen JM, et al. Clozapine and Long-Term Mortality Risk in Patients With Schizophrenia: A Systematic Review and Meta-analysis. Schizophrenia Bulletin, 2018.
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29697804/
- https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6403051/
• Gerais (UFMG), Conselho Federal de Farmácia, Estado de Minas.
- https://abre.ai/ufmg-clozapina