17/09/2025
Em nosso primeiro atendimento, ela me disse: “Sempre sonhei com esse momento: minha gravidez. Mas agora, parece que a realidade não se parece em nada com aquele sonho. Minha família e meus amigos estão distantes, não entendo o sistema de saúde, todo mundo ao meu redor parece estar feliz… mas por dentro, o que sinto é o vazio.”
Se você se reconhece nessas palavras, respira comigo. Elas não signif**am que você está falhando, signif**am que você está sentindo. E sentir, especialmente numa gestação vivida fora do seu país, é um ato de coragem.
Talvez você tenha idealizado esse momento como doce, leve e cheio de rituais.
Mas aqui, longe das vozes conhecidas e dos abraços certos, tudo parece mais silencioso. Mais difícil de nomear. Mais solitário de carregar.
E aí vem a comparação… Você vê fotos de gestantes sorrindo, recebendo visitas, comemorando chás de bebê. E seu coração se pergunta: "Será que só eu estou sentindo isso aqui dentro?"
Não, não é só você.
A solidão gestacional em contexto migratório é real, mas raramente é reconhecida. E a comparação, nesse cenário, não é só injusta. Ela é cruel. Porque você não está comparando duas experiências… Você está comparando uma travessia complexa e invisível com uma vitrine maquiada.
A neurociência já nos mostrou que ver constantemente imagens idealizadas da vida dos outros cria uma ilusão de verdade. Seu cérebro se acostuma com a ideia de que aquilo é o normal e, sem perceber, você começa a sentir que o que vive é errado. Quando, na verdade, é profundamente humano.
Você está atravessando algo grande. E mesmo que o mundo ao seu redor pareça em festa, você tem o direito de sentir o que sente. De não estar radiante o tempo todo. De duvidar. De se calar. De buscar ajuda.
Você ainda tem tempo. Mas não tem tempo a perder com o que te esvazia. Cultive espaços que te escutem, e não que te comparem. Acolha sua verdade, mesmo que ela não caiba nos filtros do Instagram.
Você está gestando longe, mas não precisa viver isso sozinha.