16/03/2026
Num tempo dominado por algoritmos, pela velocidade do instantâneo e pela tirania da superficialidade, a cultura e as artes tornam-se um dos últimos territórios de resistência e humanismo. A música, a literatura, o cinema e as restantes expressões criativas recordam-nos aquilo que nenhuma máquina consegue plenamente reproduzir: a experiência humana na sua complexidade, fragilidade e beleza.
Num mundo em que os fluxos digitais privilegiam o que é rápido, polarizador e emocionalmente manipulável, as artes convidam ao contrário: à escuta, à reflexão e à empatia. Um romance que nos coloca dentro da vida de outro, uma canção que atravessa fronteiras linguísticas, ou um filme que expõe as contradições da sociedade são exercícios profundos de reconhecimento da dignidade humana.
Não é por acaso que regimes autoritários ou populismos radicais desconfiam da cultura. A cultura cria cidadãos críticos, capazes de imaginar realidades diferentes e de questionar narrativas simplistas. Como escreveu António Lobo Antunes – tão aclamado recentemente – “a cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos”.
Num contexto internacional marcado por guerras, tensões geopolíticas e radicalização do discurso público, as artes funcionam como pontes entre povos, memórias e sensibilidades. Os governos cegamente insistem em olhar a cultura como despesa e não como investimento e dessa forma reduzem-na a coisa pública, tutelada e controlada. Um erro intencional!
As indústrias criativas desempenham também um papel económico e social fundamental. Para além de gerarem emprego e inovação, estruturam ecossistemas de pensamento e criação que alimentam a diversidade cultural e a liberdade de expressão.
Defender a cultura hoje não é apenas uma questão estética ou sectorial. É uma escolha civilizacional. Num mundo governado por dados e algoritmos, investir nas artes é afirmar que o futuro não pode prescindir daquilo que nos torna humanos: imaginação, sensibilidade e consciência crítica.
Esse é o caminho. Mais luzes, menos likes.