03/01/2026
Minha leitura do recesso do final do ano foi Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han. Han nos apresenta a análise de uma sociedade exausta por estar presa à lógica do desempenho, da produtividade e da alta performance. Tornamo-nos "empresários de nós mesmos", o que nos custa um severo esgotamento mental. O resultado desse cenário é o que ele caracteriza como doenças neuronais, marcadas pelo excesso de informações e estímulos: depressão, TDAH e Síndrome de Burnout.
Essa leitura me provoca uma reflexão que atravessa também a infância, afinal, as crianças são diretamente afetadas pelo meio em que vivem. As "doenças neuronais" também as alcançam; cada vez mais cedo, elas são diagnosticadas e medicadas. Nota-se que a maioria das queixas que levam uma criança ao atendimento clínico está ligada ao ambiente escolar — ou seja, é uma queixa de desempenho.
Seja no campo acadêmico ou comportamental, nem mesmo as crianças, que estão em plena fase de desenvolvimento, escapam da métrica da produtividade. A maior preocupação da escola moderna parece ser a nota e o "bom comportamento". Muitas vezes, no espaço escolar, a criança não pode correr, brincar ou falar muito; em suma, a criança é impedida de ser criança.
Se o aluno apresenta um bom desempenho, ele escapa ileso de críticas. Entretanto, basta dar mostras de sua "infantilidade" para que surjam os rótulos. Quem nunca ouviu o comentário: "esta criança é muito imatura"? Ora, sim, ela é imatura — e deveria ter o direito de sê-lo, pois está em processo de descoberta do mundo.
Nossa busca por escolas também é pautada pelo desempenho. Pais procuram instituições que "garantam o vestibular" para crianças que mal iniciaram o Ensino Fundamental. É uma lógica cruel: criança não tem que ter desempenho; criança precisa de uma estrutura digna para viver a infância e aprender. O aprendizado infantil não deveria ter relação com metas, mas sim com o lúdico, com os relacionamentos interpessoais, com a experiência e a vivência.
Quanto tempo mais vamos demorar para entender que estamos roubando o tempo da infância em nome de uma performance que só gera cansaço?