30/01/2026
Cão Orelha,
Eu não sei se existe um jeito certo de falar com alguém que apanhou do mundo. Não “apanhou” como figura de linguagem. Apanhou de verdade. Apanhou até o corpo virar lugar de medo. Apanhou até o último minuto ter dor.
Eu queria que você soubesse uma coisa simples: você não foi só aquele momento. Você não foi só a crueldade de quatro adolescentes. Você não foi só o barulho da violência, o choque, a injustiça, a covardia de quem escolhe machucar o mais fraco porque se sente grande por alguns segundos.
Você também foi praia. Amor...
Você foi o carinho que apareceu de onde ninguém espera. Foi mão que faz afago e não punho. Foi olhar que reconhece. Foi gente que parou, que ofereceu água, sombra, comida, segurança. Você foi aquele tipo de encontro que faz o coração lembrar que existe bondade. Que existe cuidado. Que existe quem veja um animal não como coisa, mas como vida.
Mas eu não vou maquiar o que aconteceu no fim. Eu não vou passar pano, nem transformar isso em “lição bonita”. Porque o fim foi brutal. Foi injusto. Foi desumano. E você não deveria ter conhecido a parte mais podre do humano. Você não deveria ter sentido dor como despedida.
Se eu pudesse, eu arrancaria de você os minutos finais e colocaria no lugar mais tempo de praia. Mais tempo de colo. Mais tempo de paz. Mais tempo de respirar sem medo. Porque é isso que todo ser vivo merece: existir sem ser caçado por quem transforma sofrimento em diversão.
Cão Orelha, o que fizeram com você não é um caso isolado. É um sintoma. É uma doença espalhada pela Terra. Em ruas, quintais, fazendas, galpões, laboratórios, becos, canis clandestinos, rinhas, caminhões. Em portas fechadas onde ninguém ouve. Em lugares onde a crueldade vira rotina e a vítima não tem voz.
Tem animal amarrado até apodrecer em vida. Tem animal queimado por “brincadeira”. Tem animal espancado para “aprender”. Tem animal torturado porque alguém precisa sentir controle. Tem animal vivendo como escravo, parindo, puxando, carregando, trabalhando até cair. Tem animal morrendo lentamente de fome, sede, medo — e ninguém chama isso de crime.