14/12/2025
Fingir que o amor não envolve dinheiro é uma das fantasias mais infantis que sustentamos sobre os vínculos.
Não porque o amor seja interesseiro no sentido vulgar, mas porque ele nunca esteve fora da economia da vida psíquica e material. Amar alguém implica investir tempo, corpo, palavras, expectativa, presença e, inevitavelmente, dinheiro. A própria psicanálise recorre à linguagem econômica para pensar o amor: investimento libidinal, perda, ganho, custo, dívida.
Freud foi direto ao ponto ao afirmar que as pessoas lidam com o dinheiro com o mesmo pudor, mentira e moralismo com que lidam com o s**o. O problema não está no desejo, mas na hipocrisia que tenta higienizá-lo. O dinheiro, assim como a sexualidade, toca zonas sensíveis do sujeito: poder, dependência, vergonha, gozo, controle, medo da falta.
Em uma sociedade onde o dinheiro sustenta as condições mínimas de existência, é ingênuo supor que ele não atravesse o amor. Desejar segurança, estabilidade ou sustentação não torna um vínculo falso. Torna-o humano. O amor não se organiza fora do mundo real. Ele tenta, justamente, fazer suplência àquilo que falta, inclusive no campo material.
O impasse aparece quando o dinheiro opera em silêncio. Quando sustentar vira controlar. Quando amar vira dever. Quando a dívida deixa de ser simbólica e passa a organizar o laço pelo ressentimento. É nesse ponto que amor e ódio se articulam, como Lacan mostrou ao falar do amódio. O brilho do amor sempre carrega sua face sombria.
Tratar amor e dinheiro como temas morais só produz culpa e repetição. Pensá-los como operadores do inconsciente permite deslocar o vínculo da cobrança para a palavra. Não se trata de purificar o amor, mas de responsabilizar-se pelo desejo que o atravessa.
Na clínica, esse entrelaçamento pode ser elaborado, sem hipocrisia, sem idealização e sem romantização.
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