06/08/2020
Rio de Janeiro, 05/08/2020. Sobre a Covid 19 e o retorno das crianças para a escola.
Manaus, quando iniciaram as aulas nas escolas privadas há um mês atrás, no início de julho: 826 mortes por milhão por Covid19.
Cidade do Rio de Janeiro na mesma época: 995 mortes por milhão.
Manaus após um mês de aulas nas escolas privadas: 1126 mortes por milhão (2027 óbitos, 1,8 milhões de habitantes). Dado de três dias atrás.
Cidade do Rio de Janeiro após um mês: 1344 mortes por milhão. Dado de dois dias atrás.
Ou seja, Manaus com abertura das escolas privadas aumentou em 36% suas mortes por milhão de habitantes. Na cidade do Rio de Janeiro subiu no mesmo período em 35%.
Repare na reportagem: total de ZERO casos nas escolas. Apenas dois casos e em ambos os pais foram os casos índices, confirmando o estudo do instituto Pasteur na França com cerca de 1300 alunos em que praticamente todos os casos de Covid foram adquiridos em casa. Nenhuma criança passou para professores ou colegas de escola no estudo francês. Lembrando que na França, na época do estudo, não havia esse distanciamento social e muito menos o conhecimento que temos hoje do vírus.
Analisando a ótima reportagem, podemos olhar com critério as fotos escolhidas. Todas as fotos devidamente autorizadas pela direção das escolas. Assim, podemos presumir que aquelas escolas que “não ficavam bem na foto” optaram por não deixarem a reportagem entrar, o que é natural...
Foram as medidas de Manaus que fizeram esse ótimo resultado? Atrevo-me a dizer que não. Muito provavelmente a baixa infectividade e contagiosidade das crianças para Covid19 que resultaram nesses números.
Além das crianças funcionarem como proteção de rebanho por suas características de baixa transmissão, os já altos índices de contágio da cidade de Manaus também o fizeram. Esse fenômeno vem ocorrendo em vários lugares onde o Coronavirus atingiu altíssimos índices de mortes por milhão como em Manaus, Rio de Janeiro, cidade de Nova Iorque e Madrid, por exemplo. Onde não percebemos segunda onda de óbitos.
Não adianta comparar o Rio de Janeiro com exemplos de baixa infestação, pois teremos muito mais susceptibilidade nas medidas de relaxamento nas cidades ainda pouco afetadas. Logo, os casos tendem a avançar de forma mais rápida.
Pelo que os trabalhos científicos sobre o tema e estatísticas mostram, as crianças estão mais expostas em residências que os pais tem chance de pegar do que na escola! E numa cidade já infestada, qualquer lugar é sinônimo de exposição. Mesmo para responsáveis que ficam em casa! Esse é o caso do Rio de Janeiro. Imagino que também da cidade de São Paulo, por exemplo.
E, na hipótese relativamente baixa das crianças pegarem, o índice de gravidade é baixo! Na publicação da revista Pediatrics que estudou a epidemiologia de coronavirus em crianças mostrou que do universo de quase 25 mil óbitos na Itália durante o período do estudo, que englobou os piores dias da pandemia naquele país, houve apenas 4 óbitos. Dos 4 óbitos, que naturalmente lamentamos, 2 eram em menores de 1 ano de idade e ambos eram cardiopatas. Dos outros dois, um também era cardiopata e o outro estava com câncer em estágio avançado.
A bronquiolite e a pneumonia matam, segundo a OMS, cerca de 80.000 crianças por ano somente na América Latina. A grande maioria menores de 5 anos no que se refere à pneumonia e menores de 2 anos quanto à bronquiolite. Essas doenças tiveram uma enorme redução nas cidades que fizeram quarentena! A bronquiolite quase zerou! Pergunte a qualquer pediatra que trabalhe num hospital. Então por causa disso faremos quarentena para sempre? É isso que a sociedade quer? Pois se fizermos quarentena reduziremos substancialmente esses óbitos! Para efeito comparativo, no mundo inteiro e em todas as faixas etárias, a Covid atingiu cerca de 700.000 óbitos até aqui! Não me entra na cabeça, quanto à população pediátrica, termos pavor do coronavirus e ignorarmos a pneumonia e a bronquiolite. Não com o conhecimento atual!
Conversando com algumas pessoas de fora da área da saúde algumas dúvidas surgiram sobre o tema. Houve a dúvida se era possível a criança pouco passar covid19. E a resposta é sim!!! Isso já acontece com a tuberculose pulmonar e com outras famílias de coronavirus, por exemplo! Logo, não só é possível, como bastante provável e o dia a dia dos hospitais pediátricos e os dados científicos e estatísticas mostram isso!
Por eu ser Pediatra, sinto-me de certa forma um defensor das crianças, que muitas vezes não possuem voz. É notório que elas sentem muita falta do convívio social e das aulas presenciais, com raras exceções. Percebemos isso no dia a dia. E o que falar do prejuízo cognitivo? Pode ser irreparável em alguns casos! A humanidade precisa entender que podemos não ter vacina eficaz! As vacinas para HIV também possuem enorme interesse comercial e também já chegaram na FASE 3 de desenvolvimento e até agora, passados quase 40 anos de AIDS, ainda não temos vacina!!!
Há alguns dias não sabíamos de todos esses dados. Mas agiremos da mesma forma sabendo de tudo isso? Valerá a pena no fim? Essa falta da escola tende a ser ainda pior em lares socialmente desfavorecidos. Quem ouvirá as crianças?
Por Rodrigo Cardeal.
Fontes:
https://www.pasteur.fr/en/press-area/press-documents/covid-19-primary-schools-no-significant-transmission-among-children-students-teachers
https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/07/estudo-alemao-indica-baixa-taxa-de-contagio-por-coronavirus-em-escolas.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa
Bellino S, Punzo O, Rota MC, et al. COVID-19 Disease Severity Risk Factors for Pediatric Patients in Italy [published online ahead of print, 2020 Jul 14]. Pediatrics. 2020;e2020009399. doi:10.1542/peds.2020-009399
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