10/07/2020
Tempo de Travessia
“Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos f**ado para sempre
À margem de nós mesmos” (Fernando Pessoa)
Preguiça, insegurança, ansiedade, desconfiança, irritabilidade, decepções, frustações, insônia, dificuldade de concentração, indecisão,
intolerância, desinteresse, desânimo, raiva, desilusão, nervos à flor da pele, cansaço... Esta lista ainda cresce quando me escuto e escuto a tantos sobre como estamos afetados no contexto que enfrentamos. Da criança ao idoso, temos experimentado dias estranhos e estes "convidados" do tipo "penetras" tem chegado em bando. Eles são nossos conhecidos ao longo de uma vida. Numa possibilidade de saúde física, mental e social, estes sentimentos e emoções estão bem administrados e somos capazes de acionarmos nossos recursos, adquiridos através de nossas diversas experiências, de maneira a nos reequilibrarmos em um tempo esperado e minimizando maiores prejuízos. Nesta pandemia, estas reações emocionais, estão mais presentes. Elas aparecem como efeitos psicológicos à mudança imediata da rotina e restrição da mobilidade frente a quarentena. Com o amadurecimento, passamos a aceitar (talvez) que mudanças ocorrem na nossa vida constantemente e alteram nossas relações com o mundo. Certamente, temos uma facilidade com as mudanças que são voluntárias, podendo ocorrer com planejamento e elaboração, nos impactando de maneira "controlada". Porém, há as que nos exigem muito mais, àquelas outras, as involuntárias, que nos provocam lidar com o inesperado e aprender com o que muitas vezes, foge totalmente do nosso controle. Estamos diante, talvez, do momento mais inédito e que portanto, jamais poderíamos imaginar para a nossa história. Sim, uma pandemia é algo tão do Real que não era imaginarizável e então, ainda nos falta e faltará simbólico para darmos conta de tudo isso que é e será... Estamos diante da necessidade da construção de novos sentidos; mas nos sentimos tão suspensos! Como dar conta de aceitar o chão e esse caminho? Então, resta-nos seguirmos assim, recorrendo aos nossos já conhecidos recursos... Sim! Está difícil sermos entusiasmados, criativos, produtivos, sempre compreensivos, cheios de garra e competência enfrentando este contexto que, fatalmente, nos entrega à vulnerabilidade, ao medo, ao imprevisível... O que tem me salvado a cada dia, foi ser acolhida e amada e acolher e amar em todos, todos os dias. O amor salva mesmo... Mas, desde que tudo isso começou, algumas aptidões humanas se tornaram muito mais essenciais, devendo ser trabalhadas e priorizadas para atravessarmos esse período de transição. Das que já me acompanham desde o bom dia, está o altruísmo. Este sentimento reforça nossa percepção sobre os efeitos benéficos da quarentena sobre o próximo vulnerável e nos ajuda a sentirmos mais tolerância aos estressores relacionados às restrições, reduzindo os efeitos negativos psicológicos e aumentando a nossa adesão às medidas recomendadas. Conseguir acionar e aumentar a minha capacidade de ser mais altruísta, me permite mais sentimentos positivos e então, consigo ser mais resiliente, presente, esforçada, empática, disponível, criativa, disposta, cuidadosa, desejosa, tolerante, flexível (dentro de mim e da minha casa... rsrsrs). É como tenho feito essa travessia... Atravessaremos...
Daniela Silveira - Psicóloga Clínica
@ Belo Horizonte, Brazil