30/03/2026
"A tragédia afetiva de muita gente adulta.
Está no constrangimento que sente diante de qualquer gesto simples de clareza. Responder na hora constrange. Falar com clareza constrange. Fazer um plano para a semana seguinte constrange. Nomear o que sente constrange. Como se a vida emocional, para ser aceita, ainda precisasse vir em embalagem de dúvida, atraso e ambiguidade.
Assusta perceber quantas pessoas chegaram à vida adulta sem nunca terem deixado a adolescência para trás.
Mudaram os rostos, os cargos, os boletos, as responsabilidades, mas ficou uma parte intacta, governando tudo em silêncio:
a parte que ainda acredita que parecer menos disponível dá poder, que responder depois aumenta o próprio valor, que demonstrar vontade diminui o encanto e que dizer o que quer cedo demais estraga o jogo.
Jogo. Essa talvez seja a palavra mais reveladora. Porque só chama de jogo quem nunca entrou numa relação com real disposição de construir alguma coisa. Quem quer mesmo não joga. Se posiciona.
A essa altura da vida, pedir desculpa por responder na hora é quase um sintoma do nosso tempo.
Há gente que demora três dias para responder uma mensagem e chama isso de critério. Há gente que nunca diz claramente o que quer e chama isso de prudência.
Há gente que deixa o outro ali, suspenso, sem avançar nem recuar, e chama isso de cautela.
O que essa frase expõe, com precisão, é o cansaço de quem já entendeu o preço da infantilidade travestida de charme."