07/01/2026
NUNCA MAIS HAVERÁ UMA GERAÇÃO ASSIM.
Há imagens que não são apenas imagens. São documentos. Testemunhos silenciosos de um tempo em que a vida acontecia do lado de fora da casa, no chão batido, no campo irregular, no vento frio batendo no rosto e no riso solto que não precisava de motivo nem registro. A cena das crianças descalças jogando bola num potreiro não é nostalgia fabricada — é memória social viva do Rio Grande do Sul profundo, especialmente do interior e das periferias rurais e semiurbanas do estado.
Antes do advento da internet, antes das telas ocuparem o tempo, a atenção e o afeto, a infância gaúcha era moldada pelo contato direto com o mundo real. O potreiro não era apenas cenário: era escola, era ginásio, era espaço de sociabilidade. Jogar bola ali significava aprender, desde cedo, a negociar regras, lidar com frustrações, respeitar o mais velho, proteger o mais novo e desenvolver uma inteligência corporal e emocional que nenhuma tela é capaz de substituir.
O chão irregular, com rosetas, barro, marcas de casco e até b***a de vaca, ensinava mais do que qualquer manual. Ensinava equilíbrio, resistência, atenção ao ambiente. Não havia chuteira, não havia juiz, não havia uniforme. Havia pés descalços, improviso e adaptação. E isso diz muito sobre a formação de caráter daquela geração. O gaúcho, desde pequeno, aprende que a vida não vem lisa, não vem pronta — ela vem torta, como as goleiras de taquara, e cabe a nós jogar mesmo assim.
As goleiras sem rede, tortas, mal alinhadas, são um símbolo poderoso. Elas representam uma época em que o essencial bastava. Dois paus fincados no chão eram suficientes para criar um universo inteiro de disputa, sonho e imaginação. Não importava se a bola era nova ou remendada. Não importava se o campo não tinha linhas. O que importava era o encontro. O combinado. O “quem perde sai”. O “último gol acaba”.
E no fundo do potreiro, quase indiferentes ao jogo, vacas e cavalos crioulos pastavam. Essa convivência entre o humano e o animal, entre a infância e o campo, moldou uma geração que cresceu entendendo o ritmo da natureza, o tempo do dia, o valor do silêncio e da espera. Era uma infância sem pressa, mesmo quando o jogo era corrido. O relógio não mandava. Quem mandava era o sol, o cansaço, a mãe chamando de longe.
Hoje, quando comparamos essa cena com a infância contemporânea, o contraste é brutal. As crianças de hoje vivem hiperconectadas, mas paradoxalmente isoladas. Conversam com o mundo inteiro, mas mal conhecem o vizinho. Jogam online com desconhecidos, mas raramente aprendem a perder olhando no olho do outro. O conflito foi mediado por telas, a frustração foi suavizada por algoritmos, e o corpo — esse grande educador — foi colocado em segundo plano.
A geração do potreiro aprendeu cedo que cair dói, que roseta espeta, que perder faz parte e que ganhar sozinho não tem graça. Aprendeu a esperar a vez, a respeitar o espaço do outro, a resolver conflitos sem botão de “sair da partida”. Essas crianças não sabiam que estavam sendo felizes porque a felicidade não era um conceito, era um estado natural de existência.
No Rio Grande do Sul, essa forma de brincar está diretamente ligada à nossa formação cultural. Assim como o churrasco ensina o coletivo, o futebol no potreiro ensinava pertencimento. Era ali que se criavam laços que duravam a vida inteira. Amizades que sobreviveram ao tempo, à mudança de cidade, às dificuldades da vida adulta. Porque foram forjadas no suor, na poeira e no riso sincero.
Não se trata de demonizar o presente nem romantizar o passado de forma ingênua. O mundo mudou, e isso é inevitável. Mas há algo profundamente humano que se perdeu no caminho: a experiência do corpo no mundo, do tempo compartilhado, da presença plena. A infância do potreiro formava adultos mais resistentes emocionalmente, mais conectados com a realidade e com o outro.
Essa imagem nos provoca porque nos lembra de algo que não volta do mesmo jeito. Mas também nos alerta. Ainda é possível preservar espaços, tempos e práticas que resgatem esse contato. Ainda é possível ensinar às novas gerações que brincar não precisa de sinal, que amizade não precisa de Wi-Fi e que felicidade, muitas vezes, mora num campo torto, com goleira de taquara e pé descalço no barro.
Aquela geração foi feliz e não sabia porque não precisava saber. Ela apenas vivia. E talvez o maior aprendizado que ela nos deixa seja justamente esse: a felicidade verdadeira raramente se anuncia — ela acontece em silêncio, enquanto a gente corre atrás da bola sem perceber que está construindo memória, identidade e vida.