26/01/2026
Créditos: filme "Closer, perto demais".
O fim de um casamento nunca é só um rompimento. É o colapso silencioso de uma ficção que, por algum tempo, sustentou o amor. Na psicanálise, toda relação carrega idealização. Não amamos apenas o outro; amamos também o que projetamos nele, a imagem que desenhamos para suportar nossa própria falta. Quando essa imagem se desfaz, o abalo é profundo. O sujeito perde o parceiro, mas perde também uma versão de si que existia apenas naquela história.
Por isso o luto amoroso é tão complexo. Ele não se resolve com datas, explicações ou promessas. O luto opera na dimensão simbólica, onde o sujeito precisa renunciar ao ideal que criou, reconhecer que o outro nunca coincidiu totalmente com o que se esperava. É nesse ponto que o ressentimento costuma surgir. O ressentimento tenta manter vivo o que já se perdeu, tenta transformar dor em acusação porque é mais fácil culpabilizar do que aceitar a quebra do ideal.
Mas o luto exige outra ética. Ele pede que o sujeito atravesse a perda sem transformar o próprio sofrimento em narrativa de culpa. Pede que se reconheça que toda relação é feita não apenas do que aconteceu, mas do que foi fantasiado. E desfazer essa trama dói porque desnuda algo fundamental: nenhum amor sustenta sozinho o peso das expectativas que depositamos nele.
Encerrar um casamento é enfrentar a realidade do que não pôde ser simbolizado a tempo. É admitir que, mesmo com afeto, existe limite. É perceber que amar não é fusão, e sim lidar com a alteridade, com a diferença que nenhum ideal pacifica. No fim, algo cede, algo sobra, algo se parte.
Ainda assim, algo se abre. O sujeito, desamparado mas mais verdadeiro, começa a reconstruir o próprio lugar interno, agora sem o espelho que o outro representava. Não é um recomeço romântico; é um recomeço honesto. O luto amoroso não apaga a história, mas limpa o olhar. E quando o ideal cai, o que resta pode finalmente respirar.