02/07/2015
Usos terapêuticos dos canabinoides
Recente revisão sistemática indica que o uso médico de canabinóides pode proporcionar benefícios para pacientes com dor crônica, espasticidade induzida por esclerose múltipla ou paraplegia, náuseas e vômitos induzidos pela quimioterapia, distúrbios do sono e síndrome de Tourrete (WHITING et al., 2015).
Cannabis e canabinóides têm sido utilizados para tratar ou aliviar os sintomas de inúmeras patologias, mas a sua eficácia para indicações específicas não é clara. A fim de sintetizar evidências, revisão sistemática foi publicada esse mês no periódico JAMA, avaliando os benefícios e eventos adversos (EAs) dos canabinóides.
Para tal, ensaios clínicos randomizados com canabinóides para indicações terapêuticas, foram pesquisados em 28 banco de dados. Foram selecionados estudos com aplicação da substância para: náuseas e vômitos devido à quimioterapia, estímulo do apetite em HIV / AIDS, dor crônica, espasticidade devido à esclerose múltipla ou paraplegia, depressão, transtorno de ansiedade, distúrbio do sono, psicose, glaucoma, ou síndrome de Tourette.
A qualidade dos estudos foi avaliada através da ferramenta da Cochrane para avaliação de risco de viés. Todas as etapas de revisão foram realizadas de forma independente por dois revisores. Sempre que possível, os dados foram reunidos utilizando meta-análise por modelo de efeitos randômicos.
Principais Resultados
Um total de 79 ensaios (6462 participantes) foi incluído; quatro foram julgados de baixo risco de viés. A maioria dos estudos mostrou melhora sintomática associada ao uso de canabinóides, mas estas associações não alcançaram significância estatística em todos os ensaios. Em comparação com placebo, os canabinóides foram associados a um maior número médio de pacientes que mostram resposta completa a náuseas e vômitos (47% vs 20%; odds ratio [OR], 3,82 [IC 95%, 1,55-9,42]; 3 ensaios), redução da dor (37% vs 31%; OR, 1,41 [IC 95%, 0,99-2,00]; 8 ensaios), uma maior redução média de dor, através de escala de classificação numérica ( escala de 0-10 pontos; diferença média ponderada [DMP], -0,46 [IC 95%, -0,80 a -0,11]; 6 ensaios), e redução média na escala Ashworth para espasticidade (DMP, -0,36 [IC 95%, -0,69 a -0,05]; 7 ensaios). Houve um aumento do risco de curto-prazo para eventos adversos (EA), associado ao uso de canabinóides, incluindo EA graves. EAs comuns incluíram tonturas, boca seca, náuseas, fadiga, sonolência, euforia, vômitos, desorientação, confusão, perda de equilíbrio e alucinações.
Conclusões
Evidência de qualidade moderada apoia a utilização de canabinóides para o tratamento de dor crônica e espasticidade. Evidência de baixa qualidade sugere que os canabinóides foram associados a melhorias em: náuseas e vômitos devido à quimioterapia, distúrbios do sono e síndrome de Tourette, além de proporcionar ganho de peso em pacientes com AIDS. Os canabinóides foram associados com um risco aumentado em curto prazo EAMs.
Comentários
Canabinoides são substâncias químicas capazes de ativar receptores canabinoides em nosso organismo. Eles podem ser derivados da maconha (Cannabis) ou obtidos quimicamente. Para além dos “mitos”, e eventos adversos associados a essas substâncias, têm surgido uma série de evidências indicando sua aplicabilidade para redução de sintomas de doenças graves. A revisão sistemática comentada, indica que os canabinoides podem melhorar sintomas álgicos e de espasticidade, em pacientes com dor crônica e esclerose, respectivamente. Além disso, o composto parece apresentar outros potenciais terapêuticos, como redução de náuseas e vômito provocados pela quimioterapia, melhora de sintomas de Tourrete, dentre outros.
Ainda assim é necessário destacar, que como a maioria dos fármacos, essas substâncias não são isentas de risco, e estão associadas a incremento do risco de EAM em curto prazo.
Referências
WHITING, P. F. et al. Cannabinoids for Medical Use. JAMA, v. 313, n. 24, p. 2456, 23 jun. 2015.