18/02/2018
"E se resolvêssemos imaginar por um instante que é o corpo que anima a alma, que a ajuda a se adaptar à vida concreta, que analisa e traduz, que fornece o papel em branco, a tinta e a pena com os quais a alma pode escrever nas nossas vidas?
Suponhamos, como nos contos de fadas em que as coisas mudam de forma, que o corpo é um Deus por si só, um mestre, um mentor, um guia autorizado. E daí? Seria prudente passar a vida inteira torturando esse mestre que tem tanto a dar e a ensinar? (...)
Será que temos força suficiente para renegar o pensamento geral e prestar atenção, com profundidade e sinceridade, ao nosso corpo como um ente poderoso e sagrado?
Está errada a imagem vigente na nossa cultura do corpo exclusivamente como escultura. O corpo não é de mármore. Não é essa a sua finalidade. A sua finalidade é a de proteger, conter, apoiar e atiçar o espírito e a alma em seu interior, a de ser um repositório para as recordações, a de nos encher de sensações - ou seja, o supremo alimento da psique. É a de nos elevar e de nos impulsionar, de nos impregnar de sensações para provar que existimos, que estamos aqui, para nos dar uma ligação com a terra, para nos dar volume, peso. É errado pensar no corpo como um lugar que abandonamos para alçar voo até o espírito. O corpo é o detonador dessas experiências. Sem o corpo não haveria a sensação de entrada em algo novo, de elevação, altura, leveza. Tudo isso provém do corpo. Ele é o lançador de foguetes. Na sua cápsula, a alma espia lá fora a misteriosa noite estrelada e se deslumbra"
Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que correm com lobos, nos ajuda nesses trechos a revirar a compreensão de corpo e sua relação com o mundo que aprendemos desde a infância.
Aprendemos a potencializar o intelecto, a nutri-lo com informação, sentados numa cadeira de madeira, numa postura determinada por anos a fio. E num outro extremo, somos instigados à experiência transcendental a todo o momento, sair de si, esquecer-se, ou atingir um lugar desconhecido de nirvana, compreensão do todo. E no meio disso, onde está nosso querido corpo? Onde está nosso corpo entre o intelecto e o transcendental? Quais são nossas práticas cotidianas de nutrição desse ente querido que nos sustenta?
A Ayurveda pensa a digestão como uma das funções centrais do nosso corpo, e digerir para esta ciência da vida vai além da digestão do alimento, digerimos tudo aquilo que nos chega pelos sentidos: tudo que vemos, tudo o que toca nossa pele e é tocado por ela, tudo o que cheiramos, tudo o que ouvimos e tudo o que acessamos pela experiência do paladar e do gosto.
Nutrir nossos sentidos com boas experiências é cuidar do nosso corpo. Assim como atentar-se para o estado do seu corpo, ter práticas físicas cotidianas é também um ato de nutrição e carinho cotidiano. Alongar-se, massagear seus órgãos internos, respirar com lentidão e profundidade: isso é o que nos ajuda a ter sustento, firmar intelecto e atingir o transcendental.
Nosso querido corpo, é nossa casa, nosso abrigo para experiências. Corpo-casa, corpo-abrigo, casa-co**ha: lugar de invenção de si e experimentação do mundo.
Assim iniciamos nossos trabalhos do ano em nossa casa, tentando trazer um pouco mais daquilo que acreditamos para quem quer entender de onde nossa "casa co**ha" surge, para quem quer entender o que alimento e yoga tem a ver com práticas de saúde e invenção de si. Para quem quer chegar perto, trocar ideias, trocar sabores e movimentos.
foto de Luciano Dayrell