28/12/2025
A máquina colonial e o modelo científico das políticas públicas
Sem substituir o modelo científico que estrutura as políticas públicas, estamos apenas colocando mais carne na máquina de moer carne do colonialismo. A frase pode soar provocativa, mas descreve com precisão o funcionamento profundo dos sistemas contemporâneos de governo da vida. O problema central não reside apenas na má gestão, na falta de recursos ou na corrupção institucional, mas na própria matriz epistemológica que orienta o que se entende por problema, solução, evidência e eficácia.
O modelo científico dominante nas políticas públicas é herdeiro direto da racionalidade colonial moderna. Ele se funda na fragmentação do real, na abstração dos sujeitos, na separação entre corpo e território, indivíduo e comunidade, natureza e cultura. Essa ciência, apresentada como universal e neutra, opera como tecnologia de poder: transforma populações em objetos de intervenção, sofrimento em indicador estatístico, vida em variável controlável. Não se trata de erro de aplicação, mas de coerência estrutural.
A metáfora da máquina de moer carne é adequada porque revela um sistema autônomo, que funciona independentemente da intenção ética de seus operadores. Profissionais bem-intencionados, políticas progressistas e discursos de inclusão podem coexistir perfeitamente com a intensificação da violência estrutural. Quando se ampliam políticas públicas sem questionar o paradigma científico que as organiza, amplia-se também a capacidade de captura, normalização e neutralização da diferença. O resultado é mais inclusão administrada, mais controle, mais extração de valor — humano, cultural e simbólico.
O reformismo que não enfrenta a base epistemológica do sistema tende a produzir uma inclusão colonial. Saberes tradicionais são traduzidos em protocolos; práticas comunitárias são medicalizadas; conflitos históricos são redefinidos como transtornos individuais; territórios vivos tornam-se “áreas de risco”. A diversidade é tolerada apenas enquanto pode ser mensurada, corrigida ou adaptada aos critérios do sistema. Aquilo que escapa — o ritual, o mito, a experiência coletiva, a memória — é descartado como ruído ou superstição.
Substituir o modelo científico não significa negar a ciência, mas deslocar radicalmente o regime de cientificidade. Significa abandonar a metáfora da guerra — contra a doença, contra a pobreza, contra o atraso — e adotar uma ciência da convivência, da regulação relacional, da co-emergência. Significa reconhecer que sistemas vivos não são máquinas a serem corrigidas, mas processos históricos que se conservam e se transformam em relação. Aqui, a noção de autopoiese molecular é central: a vida não responde a comandos externos, mas reorganiza-se a partir de sua própria coerência interna.
Experiências clínicas, comunitárias e culturais que operam fora do paradigma colonial — como as inauguradas por Nise da Silveira e prolongadas em práticas contemporâneas de clínica ampliada, teatro ritual e saúde comunitária — demonstram que outras políticas do cuidado são possíveis. Elas não produzem sujeitos adaptados, mas sujeitos em relação; não visam normalizar, mas sustentar a diversidade viva; não combatem sintomas isolados, mas reorganizam ecologias humanas.
Persistir no modelo científico colonial, ainda que com novas linguagens e indicadores mais sofisticados, é aprofundar a máquina. A verdadeira ruptura exige coragem epistemológica: mudar o modo como conhecemos para mudar o modo como governamos. Sem isso, toda política pública continuará a operar como engrenagem de um sistema que administra vidas enquanto consome futuros.