17/10/2012
"E, depois de muito tempo, comecei a entender"
Existia um abismo na minha maneira de comunicação entre os dois universos de gêneros, colossal e muito limitante. Conseguia abstrair todas as formas de comunicação inteligíveis dos meus amigos, tinha capacidade e sensibilidade para me fazer compreendido. Entretanto, sempre foram as meninas que instigaram meu matiz de troca de informações e me frustraram muito ao longo da vida com padrões indecifráveis por mim até algum tempo. Não era a falta de treinamento que me compelia e me tolia do êxito, mas sim uma pobre compreensão de um vocabulário algo mais sutil que o nosso linguajar racional e pragmático.
E nesse momento, com o peito apertado pela asma, sinto a mesma sensação que elas sentem quando não são entendidas. Quando dão sinais para nos deixar avançar e esperam aquela ligação no dia seguinte que simplesmente teima em não chegar. O telefone que silencia, o sms não correspondido, as flores prometidas que são entregues, amargamente, em outro endereço. Porque elas toleram ser criticadas, aguentam brigas, turbulências, mas são intrasigentes com o descaso, com a indiferença, com o esquecimento. O ostracismo agride, o tempo corrói a alma que espera o novo contato. Um toque a mais, uma conversa mais longa, mais atenta, menos relapsa, enfim, algum diálogo que prove que ela não é apenas mais uma. Uma palavra, que a faça se sentir especial e diferente, a escolhida. Não pela eternidade, mas pela perenidade que esse alguém a faça deixar de sentir, pela atemporalidade dessa fórmula, por um roteiro que tenha mais de uma página, de uma noite, ou melhor, que seja realmente um livro e não uma nota sucinta. Porque não sabemos se seremos capazes de ter um relacionamento duradouro, mas somos sim coniventes que as rupturas, com os desenlaces. Por que simples atitudes mantém saudáveis nossas mulheres, elogios aos seus cabelos sempre e, jamais, críticas quanto sua forma física ou perda dela… Entre junto na academia, vá você ao supermercado, pague sessões de radiofrequencia, ultrassom, carboxiterapia, mas mesmo acoado com a pergunta, nunca diga que ela está fora do peso, porque ela foi feita sob medida para você, então quanto mais dela tiver ao seu alcance melhor. Quem critica uns quilinhos a mais, pode perder todos eles num instante para outro que dê mais valor ao todo. Eu ficava pasmo ao pensar que elas gostassem de homens metrose***is, uberse***is, mas me dei por conta que elas almejam metros, não se***is, mas de cartas a elas endereçadas, quilômetros percorridos em viagens ao exterior e não vaidades que tentem competir com seu brilho.
E, depois de muito tempo, comecei a entender… Que elas não são nada complicadas, pois buscam coisas simples. E, na simplicidade, vencemos a equação do amor. Desejam ser ouvidas, querem falar sobre seu dia, consultar-vos sobre seu trabalho, e para isso remetem ao seu instinto de pai. Querem ser filhas, cônjuges, mães, tudo ao mesmo tempo na relação conosco, exigem sua versatilidade. Precisam cuidar e sentir fragilidades em seu homem, para exercitar diariamente com você o que nasceram para fazer: ter filhos. Desejam sua lascívia, eternamente, mesmo sem maquiagem e vestindo pijamas, pois são suas concubinas, nossas amantes. Precisam ser cortejadas… que marquemos uma janta inesperada em um restaurante esperado, para que recebam a atenção desejada num momento a dois, mesmo que com o local cheio… e a comida passa a ser mero detalhe, mas sempre peça sobremesa (isso elas não abrem mão). O carro que você a irá buscar não importa, porque elas não memorizam a marca, e tampouco ie interessam, desde que o motorista seja um cavalheiro e lhe abra a porta (com certeza o fetiço será tamanho que ela apenas se lembrará, talvez, da cor). Preferem os automáticos, não por serem mais modernos ou mais caros, mas para que sua mão possa ficar entrelaçada com a dela em vez de ficar trocando marchas. Elas falam, sim, uma língua um pouco diferente da nossa, um idioma de entrelinhas, quase que um dialeto do seu próprio linguajar, pois são menos diretas, querem testar sua capacidade de decifrar pistas, querem ver se você as nota como merecem diariamente. Jamais esqueça de reparar em seus cabelos, me ensinou uma amiga certa vez, porque ela gastou uma fortuna para deixá-lo daquele jeito para você, amigo. Não poupe elogios ao seu novo vestido (ou mesmo que o tenha repetido), faça olhar de admiração e contemple os adornos ( perceba que em seu pescoço está um colar que sua avó lhe deu antes de falecer e que ela o tem com muito carinho).
Enfim, a comunicação delas é mais exigente, menos direta. Nós, homens, transitamos num plano cartesiano das coisas concretas, elas precisam da abstração, do entorno, do subliminar das palavras. Sabe aquele conforto que sentimos ao voltar para casa depois de uma viagem ao exterior, quando sentimos um relaxamento fantástico por falar nossa própria lingua? Pois bem, a mulher que é compreendida em sua maneira de comunicar se sente assim com o seu escolhido. E ousaria dizer mais, elas andam por aí atrás, não de um porto seguro, mas de um macho seguro, que as entenda, que fale seu dialeto de sinais, mas que principalmente as ouça sempre. E, meu amigo, depois que ela encontrou esse cara, que ela tem a certeza rotunda que domina sua arte de se comunicar, não adianta nem você tentar querer declamar poesias de Olavo Bilac ou recitar textos do Jabor, porque ela encontrou não um escritor, mas um leitor, que foi suficientemente competente para entender o autor que mais admiram: elas mesmas. E nesse livro, ninguém escreve cabeçalhos ou notas de rodapé, esqueça; nesse romance, ninguém se mete.
Belo texto do Eduardo Ferraz