25/05/2017
Parece óbvio dizer isso, mas não conheço ninguém que aprendeu a andar de bicicleta lendo um manual.
Primeiro, as rodinhas. Elas te sustentam até você ser capaz de manejar minimamente a bicicleta. Depois as rodinhas se vão e sobra apenas aquela mãozinha amiga que segura o banco da bicicleta. De repente essa mãozinha some e te deixa com um frio na barriga do tipo: "Vixi, to por conta própria!".
É claro, muitos tombos ainda serão necessários até que a pessoa aprenda a controlar melhor a bicicleta e seja capaz de andar por lugares mais difíceis. Mas a mãozinha te larga por um motivo: és capaz de aprender sozinho.
Tornar-se terapeuta.
Entramos todos na universidade com uma leve notícia sobre algumas das funções que o psicólogo pode exercer na sociedade. As “rodinhas de apoio” acabam sendo úteis e necessárias, pois precisamos começar do básico. Aos poucos elas acabam se tornando desnecessárias e vamos começando a fazer parte desse universo profissional. Estágios, pesquisas, atendimentos em clínica-escola, supervisão... Somos cada vez mais capazes de fazer nossas escolhas de atuação dentro desse vasto mundo da psicologia. E aí seguimos na pós-graduação, mestrado, doutorado...
E, de repente, a mãozinha te solta.
Cambaleando, seguimos equilibrando nossos saberes com a sensibilidade que nos faz humanos diante daqueles que nos procuram em busca de ajuda. E há tombos, momentos em que parecemos desacreditar das nossas capacidades.
Eu lembro meus pais gritando logo depois de largar o meu banquinho: “Equilibra, pedala mais rápido!”. E lembro também de todas as vezes que, já mais ágil, saí para andar de bicicleta e me meti em algumas enrascadas das quais eu mesma dei um jeito de me safar.
Cada encontro, cada história, cada supervisão, fazem de mim a psicóloga que eu quero ser. Cada livro, aula, palestra... Cada troca com os colegas e professores. São as mãos que largam o meu banquinho no momento em que eu preciso. São as vozes que me vem a mente quando, sozinha, preciso me orientar.
Sem falar nos pacientes, é claro, com quem encaro o desafio conjunto de aprender a andar de bicicleta pelos mais diversos (e por vezes tortuosos) caminhos.
Acho que é isso... tornar-se terapeuta é um eterno passeio de bicicleta.
Seguimos pedalando.