18/09/2025
Atendendo pessoas enlutadas há muitos anos, seja por morte ou outro tipo de ruptura de uma relação, me deparo com um relato doloroso que se repete: algo que - quase sempre - f**a inacabado. Uma palavra que não foi dita, uma experiência que ansiava ser concretizada, um pedido não atendido, pendências não resolvidas, decisões não tomadas, perguntas sem resposta, uma próxima data especial a ser vivida, anseios não compartilhados, mais um “eu te amo” a ser expressado. A permanência da dúvida, da incerteza, do “e se…” que revela a insistência em refutar a impermanência de todas as coisas.
Em meio a tudo isso, uma inquieta interrogação: em uma relação com proximidade e investimento suficiente, será que dá para não haver qualquer coisa que f**a inacabada?
será que não deixamos a sequência de um fio a ser tecido em um próximo momento? E será que isso não é mesmo parte constituinte de toda relação?
Em uma ruptura, costumamos f**ar algum tempo elaborando o inacabado, às vezes à espera de uma finalização quase perfeita e fantasiosa. Aqui alguns permanecem presos por um longo período. No entanto, acessando a realidade, podemos entender que em toda relação algo poderá f**ar inacabado, simplesmente pelo fato da vida compartilhada gerar inúmeras repercussões - esperadas e inesperadas - em nós, no outro, no ambiente. E se tivermos tempo suficiente nesse entrelaçamento de vidas, inevitavelmente algo mais f**ará pendente de ser vivido, dito, resolvido, elaborado.
Viver relações com signif**ado não pressupõe que sempre consigamos fechamentos redondinhos e perfeitos, ainda que haja esforço e engajamento suficientes.