13/07/2022
Não sei quais feridas habitam o coração deste ser, mas tenho certeza que são muitas para praticar um ato tão hediondo quanto esse. Que buraco, que vazio, que violência existe ali?
Um homem, dentro de uma sala controlada como um centro cirúrgico, acompanhado de tantas outras pessoas, não se conteve em procurar prazer, prazer que nunca foi direito a ele. A mulher e a família procuravam o prazer da vida naquele momento, ele o poder de adentrar, sedar, calar, silenciar, subjulgar, fazer valer a sua própria vontade.
Tirou daquelas mulheres o respeito de seus corpos, as violentou em todas as esferas possíveis. Uma mulher ser estuprada, num ambiente controlado, no momento de dar a luz, por quem deveria protegê-lo e salvaguardar sua vida! Qual a função de ter um anestesista em sala de parto? Não é tão somente anestesiar para não sentir dor. E garantir atendimento e suprir o suporte de vida. Ele quebrou essa confiança.
Ele tirou dessa mulher o direito de ouvir o choro, de apreciar os olhinhos. Ele tirou dessa mulher um momento sem volta, o boas vindas ao seu filho. Ele tirou desse filho, o direito de encontrar sua mãe acordada. De se aconchegar em seus braços. Ele tirou a hora dourada.
Ele tirou desse marido o direito de estar presente. De proteger seu filho, sua esposa. Ele tirou o direito do sorriso banhado em lágrimas, do abraço de espera.
Ele trouxe trauma, dor, vazio, medo, solidão, agressão, mágoa, raiva, nojo.
O estupro não dói somente no corpo, ele fere a alma. A alma de uma mãe violentada, de um pai que não pode ser vigilante, e um bebê que já nasceu sem direitos, aquele básico, o respeito.
O estupro não é somente sobre a insanidade, a inconsequência, a podridão. É sobre poder. É violado o mais fraco. E bota nessa conta o poder de além de tudo silenciar. De não ter a memória. Que poder tão grande tinha esse médico de dominar o corpo, adentrar, e ainda sedar, silenciar as sensações, impedir a luta, a fuga.
É e sempre foi sobre poder.
E numa história normal, se a enfermeira não tivesse provas tão reais, seria mandada embora, para não manchar a integridade do homem, hetero, branco, e médico.
Mas todo poder uma hora acaba!!