03/04/2026
Às vezes eu sinto raiva. Muita raiva.
Ao longo da caminhada do luto, existem momentos em que alguns sentimentos aparecem com mais força.
E para mim um deles é a raiva.
Uma raiva que tenho aprendido a reconhecer.
Uma raiva que faz parte da dor de quem perdeu alguém que ama profundamente.
Uma raiva que, muitas vezes, me deixa mais sensível, mais intolerante, mais chorosa, mais isolada e emocionalmente sobrecarregada.
Às vezes, essa raiva não vem em forma de explosão.
Ela vem em forma de silêncio.
E muitas vezes ninguém percebe que ela está ali.
Mas eu sei.
No processo de luto, sentir raiva não significa falta de fé, ingratidão ou fraqueza.
Significa que existiu amor, vínculo, expectativa, desejo de permanência.
Significa que houve uma ruptura dolorosa entre a vida que se sonhava viver e a vida que precisou ser enfrentada.
Por isso, eu acredito que não basta apenas temer esse sentimento ou tentar escondê-lo.
É preciso, aos poucos, dar lugar ao que se sente.
Falar sobre isso.
Nomear o que dói.
Encontrar caminhos possíveis para que essa emoção não fique aprisionada dentro de nós.
Porque quando a dor não encontra espaço para existir, ela costuma pesar ainda mais na alma e no corpo.
Hoje, eu estou sentindo muita raiva.
Raiva porque eu queria viver o que deveria ter sido.
Queria que nada disso tivesse acontecido.
Queria meus filhos todos comigo.
E reconhecer isso também faz parte do meu processo.
Por isso, agora eu vim treinar.
Não para fugir do que sinto,
mas para encontrar uma forma possível de atravessar esse momento.
Me movimentar, respirar, me conectar com o presente e permitir que parte dessa intensidade encontre saída.
Talvez eu não saia daqui sem dor.
Mas talvez eu consiga sair um pouco mais tranquila para continuar o caminho.
🌻Ruana Queiroz
CRP:17/2843