22/03/2026
A principal questão deste filme parece estar relacionada aos dois sentidos de fim: o luto teria uma finalidade na existência de cada um? O luto termina?
Sonhos de trem (2025, Netflix) teve 04 indicações ao Oscar, incluindo fotografia ( o brasileiro Adolpho Veloso) e melhor filme, mas não é uma obra que combina com nossa pressa dos dias atuais.
É a história de um lenhador que vive silenciosa e pacatamente, imerso em sua solidão que mais parece contemplar sua existência do que esvaziá-la. Ao encontrar o amor, ele muda o rumo de seus dias, construindo uma família por quem é devotado e para onde sempre retorna com muito investimento.
Parece ter alcançado o fim - finalidade de sua existência, quando uma situação inesperada ceifa-lhe o que possui de mais precioso.
O luto pela perda de sua família é apresentado como uma destruição sem precedentes. No terreno árido onde tudo se fez pó, o lenhador se recolhe e se retira de si, do mundo, e dos outros.
A natureza apresentada no filme é uma ótima metáfora sobre a continuidade da vida. A cada entardecer e anoitecer, as sombras e memórias, os raios de luz entre as árvores, tudo aquilo que passa ao passo de que nada muda. Ao mesmo tempo em que tudo se movimenta, a obra vai dando o tom de esperança que o espectador anseia. A gente passa o filme inteiro esperando que algo aconteça, exatamente como na vida real. Esperamos algo amanhã, ou esperamos sempre a oportunidade “perfeita” acreditando que a vida está por vir.
O filme mostra que a vida é o que temos. Simples ou complexa, rápida ou devagar, o que temos é nosso tempo. Em nós ou ao nosso redor, é aquilo que escolhemos assentar. É com o que decidimos e podemos ficar.
O luto na tem um fim - término. O luto acompanha cada um em sua jornada. É uma busca por adaptar-se, refazer-se, transforma-se. O luto carrega o que vivemos, quem somos e quem amamos. O amor nunca termina e nos acompanha em cada novo laço, desejo ou sonho.
Se estiver com pressa, não assista a Sonhos de Trem. Mas se quiser contemplar a beleza da força da vida. Aquilo que cai e o que se ergue após a dor. Vale a pena experimentar.