07/04/2026
O estudo DIG-RHD, apresentado no ACC 2026, forneceu evidências sobre o papel da digoxina na cardiopatia reumática, uma condição ainda altamente prevalente em países de baixa e média renda.
Trata-se de um ensaio clínico multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido em 12 centros na Índia (2022–2025), com 1.769 pacientes sintomáticos. A população foi predominantemente feminina (72%), com média etária de 46 anos. O desenho pragmático (“all-comers”) incluiu pacientes com ampla representatividade clínica, excluindo apenas contraindicações formais à digoxina; 34% já faziam uso prévio da droga. A posologia ficou a critério do médico assistente, reforçando a aplicabilidade no mundo real.
Dada a baixa taxa de hospitalização por insuficiência cardíaca (IC) nesses cenários, o estudo adotou um desfecho funcional: piora da IC definida por necessidade de intensificação de diuréticos ou uso intravenoso. Após seguimento médio de 2,1 anos, a digoxina demonstrou benefício clínico relevante.
No desfecho primário composto (morte por qualquer causa ou início/piora de IC), houve redução relativa de 18% no grupo digoxina versus placebo. A análise isolada mostrou que o benefício foi predominantemente impulsionado pela redução da progressão da IC, sem diferença estatisticamente significativa em mortalidade total. Nos desfechos secundários, observou-se redução semelhante (18%) no composto de morte por IC ou piora clínica.
A análise de subgrupos não evidenciou heterogeneidade por s**o ou IMC. Pacientes com fibrilação atrial sugeriram maior benefício, embora sem poder estatístico conclusivo. Em termos de segurança, a taxa de toxicidade foi baixa (≈1%), majoritariamente gastrointestinal ou visual, sem óbitos ou hospitalizações atribuídas à droga.
Em síntese, o DIG-RHD reposiciona a digoxina como uma estratégia eficaz e segura para controle da progressão da IC na cardiopatia reumática, especialmente em contextos com acesso limitado a intervenções valvares, alinhando-se a uma medicina pragmática, custo-efetiva e baseada em evidências.
Dr. Cesimar Severiano do Nascimento, Cardiologista, CREMERN 2050, RQE 629.