18/02/2026
Hoje, no Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo, falar sobre o TABU DO ALCOOLISMO FEMININO é, sobretudo, um ato político, científico e profundamente humano.
Por décadas, o alcoolismo foi retratado como um problema "masculino". Quando a mulher alcoolista aparecia, não era vista como paciente, mas como falha moral:
"mãe irresponsável";
"mulher fraca";
"vergonha da família".
Essa narrativa não é apenas cruel - ela impede o acesso ao tratamento, mata em silêncio e reforça a exclusão social.
Do ponto de vista científico e clínico, o alcoolismo em mulheres apresenta características específicas. Evidências mostram que mulheres metabolizam o álcool mais lentamente, possuem maior proporção de gordura corporal, o que aumenta a toxicidade, e desenvolvem danos hepáticos, cardíacos e neurológicos mais rapidamente que homens. Sem falar que muitas bebem em silêncio, dentro de casa, em contextos atravessados por trauma, violência, sobrecarga materna e exaustão emocional. A vergonha e a culpa intensificam o ocultamento e retardam a busca por ajuda.
A mulher alcoolista não é julgada apenas como usuária de substância - é julgada como mulher, mãe, esposa, cuidadora.
Cria-se, então, um paradoxo cruel: quanto mais ela sofre, mais se esconde; quanto mais se esconde, mais adoece.
Historicamente, políticas públicas sobre álcool e outras dr**as foram desenhadas a partir de um modelo masculino de uso e tratamento. Poucas estratégias consideram mulheres com filhos, mulheres vítimas de violência, mulheres em situação de vulnerabilidade social, ou mulheres em Comunidades Terapêuticas sem estrutura sensível ao gênero.
Isso configura uma forma de violência estrutural por omissão.
Por isso, romper o tabu é uma obrigação ética e social.
Alcoolismo é doença, não falha moral. Cuidado sem julgamento é empatia. A construção de espaços terapêuticos com perspectiva de gênero é política social necessária.
E, sobretudo, dar voz às mulheres em recuperação é romper o silêncio que mata. Porque falar sobre alcoolismo feminino é falar de dignidade!
Que esse texto seja visto como um gesto de reparação histórica. Nós, mulheres que trabalhamos na Comunidade Terapêutica Recomeçar, estamos fazendo aquilo que muitas instituições não fizeram: nomear o sofrimento, legitimar a mulher, politizar o cuidado.
Se alguém ler isso e se reconhecer, que saiba: não há vergonha em adoecer; há coragem em buscar ajuda e há revolução em uma mulher que decide contar a própria história.
Por Lidiane Jardim.