26/12/2025
Escrevi o Conto: O Sinal de Ortunho
“Sí, pero discreto.”
Hugo Roberto Lisboa, médico
No final dos anos 1960, na Faculdade de Medicina da Universidade Católica de Pelotas, o clima era de expectativa: estávamos recebendo a visita do professor Herrera Ramos, uruguaio, docente em Montevidéu e médico do presidente de seu país.
No anfiteatro em meia-lua, cheio de estudantes, sua entrada foi quase teatral. Em seguida, trouxeram uma paciente em uma maca, que o professor Herrera iria examinar. Instalou-se um silêncio respeitoso.
O mestre iniciou então sua digressão, apontando uma série de sinais que a pobre paciente, com o semblante assustado, apresentava. Dizia em espanhol:
“Miren, aquí tenemos el signo de Eberden, el signo de Bouchard, el signo de Courvoisier-Terrier, el signo de Grey Turner, el signo de Trousseau…”
E assim prosseguiu. Cada sinal era apontado com solenidade, e cada nome pronunciado como um selo de erudição.
Um colega muito brincalhão, com timing perfeito, perguntou:
— Professor, a paciente não apresenta o sinal de Ortunho?
A resposta veio imediata, segura, sem hesitação:
— Sí, pero discreto.
A resposta provocou um riso contido, pois Ortunho não era epônimo algum — era apenas um conhecido jogador do Grêmio. Nada de patologia, nada de semiologia.
Percebeu-se então que o professor Herrera Ramos, na verdade, “queimava campo por todos os lados” e havia sido descoberto como vítima de um epônimo inexistente — talvez o mais perfeito de todos.
Nossos professores, como manda a regra da boa educação, nada comentaram. Mas, entre nós, ficou claro que se deve sempre desconfiar do exagero de citações propedêuticas.