26/11/2025
O que são “reservas” na dependência química?
No processo de recuperação, chamamos de reservas todos os pensamentos, atitudes, crenças e comportamentos que o dependente químico mantém guardados — muitas vezes de forma inconsciente — e que podem abrir caminho para uma recaída. São como pequenas “brechas” internas que a pessoa ainda não fechou; espaços onde a doença continua tendo voz.
As reservas funcionam como justificativas emocionais ou mentais que a pessoa cria para manter alguma ligação com o uso, mesmo dizendo que quer parar. Elas surgem quando o dependente químico acredita que ainda pode controlar alguma parte do processo, ou quando ainda não está totalmente entregue ao tratamento.
Exemplos de reservas comuns:
Acreditar que pode usar “só um pouco” no futuro.
Pensamentos como “talvez um dia eu consiga beber socialmente” ou “quando eu melhorar, posso fumar só um” são reservas típicas e perigosas.
Manter contatos do passado associados ao uso.
Não bloquear antigos parceiros de consumo é uma reserva emocional e comportamental.
Guardar objetos ligados ao uso.
Como esconderijos, telefones, redes sociais, rotas, músicas e até utensílios que remetem ao passado.
Romantizar o uso.
Sentir saudade do “prazer”, da “sensação boa”, esquecendo o sofrimento que o uso trouxe.
Substituições perigosas.
Iniciar compulsivamente outros comportamentos — jogos, s**o, compras, remédios — acreditando que isso “não tem problema”, quando na prática mantém viva a lógica da adicção.
Minimizar o problema.
“Não era tão grave assim”, “tem gente pior do que eu”, “acho que exagerei”.
Minimizar é uma reserva clássica.
Por que as reservas são tão perigosas?
Porque elas enfraquecem a entrega ao tratamento. Recuperação exige sinceridade consigo mesmo, humildade e mudança real de comportamento. As reservas criam atalhos mentais que alimentam a negação e reduzem a vigilância — abrindo espaço para o autoengano, o maior inimigo da sobriedade.
A recaída, quase sempre, começa nas reservas: primeiro como um pensamento, depois como uma pequena permissão interna… e, quando a pessoa percebe, já voltou ao padrão antigo.