12/01/2026
O recorte da fala de Bruna Marquezine, em sua participação no Pod Delas Podcast, ao abordar seu processo terapêutico, revela de forma sensível a ferocidade com que o sujeito pode voltar contra si forças pulsionais originalmente dirigidas ao mundo externo. Freud, em O Eu e o Id (1923), aponta que a autocrítica severa nasce da identificação com o olhar exigente do Outro, estruturando um Supereu que vigia, julga e pune. Quando a atriz afirma ser capaz de ser “seu pior hater”, evidencia-se justamente essa instância psíquica que, em vez de proteger, se converte em fonte de sofrimento.
O reconhecimento de que sua autoimagem era moldada pelo olhar alheio dialoga com o que Lacan descreve como captura imaginária. O sujeito busca confirmar sua existência no espelho do Outro, mesmo quando esse reflexo é hostil. Ao mencionar que esse olhar “nem sempre vem coberto de empatia”, Bruna toca no ponto em que o discurso social adquire potência superegóica, impondo ideais e julgamentos que silenciam o desejo.
Quando relata sua chegada à análise dizendo “não sou louca”, emerge outra dimensão freudiana fundamental: a resistência, sustentada por estigmas culturais em torno do sofrimento psíquico. É somente quando a palavra encontra acolhimento que o sujeito começa a diferenciar a voz crítica que tenta organizá-lo daquela que o fere. Nesse sentido, Winnicott nos lembra que é no ambiente suficientemente bom que o Eu pode emergir de forma mais autêntica.
Outro ponto relevante aparece quando Bruna afirma que tenta “calar essa voz”. Esse movimento aponta para um deslocamento clínico importante: sair das identificações tirânicas e construir uma posição mais ética diante de si mesma. Um processo contínuo, cotidiano e profundamente humano, que não elimina a crítica, mas a reinscreve em um lugar onde ela deixa de ferir para, finalmente, cuidar.