06/01/2026
Ontem, no caminho de volta do aeroporto, depois de deixar meu filho caçula embarcando para as próprias férias, uma pergunta me atravessou de súbito, como quem tropeça em si mesma:
Por que eu não estou indo junto?
Foi ali que entendi, sorrindo da minha incredulidade, que eu havia tirado férias das férias. Uma pausa dentro da pausa. Um intervalo que não pede malas, mas silêncio.
Sempre amei viajar. Amo o movimento: o corpo em deslocamento, a sensação de estar indo depois voltando. Amo o frio que morde a pele, as fronteiras atravessadas, os lugares desconhecidos, os passeios sem nome. Amo, sobretudo, a certeza de estar de férias.
Mas desta vez decidi ficar. Ficar em casa. A decisão veio acompanhada de argumentos cuidadosamente organizados pela minha consciência crítica: coisas a resolver, vida a organizar, pendências domésticas. Sei e admito com certa ternura que são, em grande parte, desculpas bem articuladas. Nunca fui de adiar viagens por causa do cotidiano. Sempre fui prática. Sempre fui embora.
Só que agora, algo em mim pediu outra coisa.
Pediu o direito de acordar sem destino. De não precisar decidir se o sol está bom, se a chuva atrapalha, se é melhor a praia, o ponto turístico ou o restaurante novo. Coisas que amo, sim, mas que, neste instante da minha vida, deixaram de ser urgentes.
Talvez eu descubra os motivos na meditação. Talvez eles não precisem de nome.
O que sei é que meu corpo fala. E ele pede paz. Pede pausa. Não a pausa da estagnação, mas a do recolhimento. Meu corpo pede silêncio. Pede que eu me observe sem pressa.
Não sei se me faço entender. Talvez não. Talvez nem eu mesma me entenda ainda.
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https://www.acreaovivo.com/noticia/189482/ferias-das-ferias