05/04/2026
Tem uma hora da vida, e ela costuma chegar silenciosa ali pelos 50, em que a gente começa a assistir a própria história como quem assiste a um filme e, curiosamente, passa a se identif**ar com personagens que também estão revendo escolhas, lidando com perdas e fazendo contas invisíveis do tempo que ainda pode existir. É estranho perceber que muitas vezes a gente só acorda para a vida quando ela dói, quando vem o luto, a doença, a ausência, como se algo sacudisse por dentro e dissesse olha direito pra isso aqui porque está passando. Mas por que esperar a dor? Por que a coragem precisa nascer da perda? Por que não viver antes do susto, por que não arriscar antes do medo virar arrependimento? A verdade é que a gente cresce aprendendo a se conter, a não incomodar, a não errar, a caber, e sem perceber vai colecionando pequenos medos, muitos deles bobos e desproporcionais, que somados vão moldando uma vida mais segura e menos viva. E aí chega esse ponto de virada, 51 anos por exemplo, e a pergunta deixa de ser abstrata e f**a concreta, quase palpável, quanto tempo eu tenho? Não como angústia, mas como consciência. E junto com essa consciência nasce uma liberdade mais crua e honesta, a liberdade de sair mais, de dançar sem tanta explicação, de comer, brindar e viver sem precisar justif**ar cada escolha, de ser menos perfeita e mais verdadeira. Porque no fundo o que a gente descobre não é só que a vida é curta, é que ela sempre foi incerta, e talvez a grande tristeza não esteja no envelhecer, mas em perceber que a coragem poderia ter vindo antes. Ainda assim há algo profundamente bonito nisso tudo, acordar mesmo que no meio do caminho, porque enquanto há consciência há escolha, enquanto há escolha há vida, e enquanto há vida ainda dá tempo de ser mais corajosa do que ontem.