22/09/2020
Christian Dunker e Cláudio Thebas, no livro "O palhaço e o psicanalista", trazem o que une essas duas atuações, a princípio tão diferentes. Para eles, ser palhaço e ser (um bom) psicanalista envolve ter a capacidade de escutar. Qual é, então, a grande profundidade de uma boa escuta?
Quando falamos sobre a escuta, automaticamente nos remetemos à ideia de uma atitude passiva, como um mero "deixar falar, enquanto ouço em silêncio". Contudo, uma boa escuta demanda uma atitude ativa, envolvendo acessar o que realmente a pessoa está querendo dizer, e não um discurso já transformado pela perspectiva julgadora e pessoalizada do ouvinte que costuma, inclusive, ser nossa postura cotidiana. Afirmar isso não significa defender ingenuamente que uma neutralidade radical seja atingível no entendimento do discurso do outro, mas que esse estado de atenção e de distanciamento deve ser sustentado ao máximo. E isso é um trabalho!
Na clínica, a escuta é a ferramenta primária. Somente a partir dela é que conseguimos acompanhar de forma autêntica a experiência do paciente e assim oferecer uma relação próxima na qual ele mesmo se escute. Os dois autores, a propósito, citam no livro acima esse paradoxo da escuta: ela exige que nos coloquemos em uma posição muito distante e muito próxima do outro, simultaneamente.
Freud, quando chamou de talking cure ("cura pela fala") o seu novo método desenvolvido no consultório, esquematizou a importância de ser um bom "escutador". Contudo, para a fala ser de fato "curativa", é preciso que haja um outro sustentando esse lugar de interlocutor, algo extremamente desafiador e cansativo, inclusive por performatizar ali uma recusa em oferecer uma saída ou um conselho pronto, às vezes a um paciente que arduamente demanda por tal.
E qual a beleza nisso? Escutar é viajar a um mundo com intensidades, sentimentos e memórias outras, e ainda participar de forma tão íntima no processo de tentativa de buscar respostas, deslocamentos e transformações de outra pessoa diante do mistério da vida. Mistério esse com o qual todos nós nos defrontamos.
Texto de Henrique Saldanha