09/02/2026
O filme parte da premissa do conto de fadas Cinderela, mas enquanto o conto dos irmãos Grimm opera diante de uma realidade feminina marcada pela submissão, oferecendo uma fantasia de redenção pela virtude, pela paciência e pela beleza “natural”.
A Meia-Irmã Feia, inverte o foco narrativo, rompe essa função compensatória e a substitui por uma exposição traumática do mito.
O filme não consola, desvela. O que antes era símbolo torna-se sintoma.
Ao deslocar o eixo moral do bem versus mal para o regime patriarcal que organiza o valor das mulheres, o filme subverte a narrativa e apresenta a madrasta e as meias-irmãs não mais como arquétipos demonizados, passando a ser sujeitos feridos por um mesmo sistema simbólico.
Na Psicologia Analítica, a persona é a máscara social necessária para a adaptação. No filme, o corpo feminino funciona como persona radicalizada, não é apenas aparência, mas condição de existência social.
A meia-irmã considerada feia encarna a falência da persona feminina normativa. Seu corpo não performa adequadamente os ideais de beleza, docilidade e desejabilidade exigidos pelo patriarcado. A violência que ela sofre, humilhação, exclusão, autodepreciação, não é apenas interpessoal, mas uma imposição cultural.
No filme f**a claro que o valor com o qual a mulher se identif**a está inconscientemente ligado à sua adequação estética e sexual ao olhar masculino.
Esse complexo atravessa todas as personagens femininas, inclusive Cinderela, que não é livre para fazer suas próprias escolhas, apesar de ser premiada por corresponder perfeitamente à persona ideal, definida pelo olhar do homem, príncipe.
Muito mais pode ser dito sobre esse filme, convido vocês a assistirem e refletirem sobre as imposições patriarcais ao corpo feminino.
Ah! E o príncipe só busca um objeto de beleza mesmo.