15/09/2022
A NOVA FOBIA COLETIVA
Becky S. Korich
A vida não deixa. São tarefas ininterruptas, uma anexada à outra, que parecem não caber 24 horas por dia. “É muita demanda”, “falta de tempo”. É isso que cansamos de dizer. Mentira: o que falta são pausas, silêncios, lacunas. O que falta é a falta.
Falta um pouco de “nada”, tempos e espaços vazios. Falta um dia sem Wi-Fi, sem redes sociais, sem TikTok; não há necessidade de ouvir os minutos. Você não sabe o que ligar e quando desligar.
Falta de coragem para ficar sozinho. É a nova fobia coletiva: medo do silêncio e da solidão.
A luz está apagada e os olhos estão fechados. Não há necessidade de ter nada à sua frente. Você precisa ver no escuro, ouvir palavras não ditas. Você precisa ser capaz de se calar. Falta a falta de ruído, para que possamos ouvir uns aos outros. Falta a falta de imagens, para que possamos nos ver.
Falta o ponto e vírgula, o intervalo do jogo, a luz vermelha, domingo aos domingos. Não ter todas as respostas. O hiato está em falta. Você precisa saber esperar.
Não queremos mais textos longos, filmes longos, conversas profundas. Mal podemos esperar pelo próximo episódio. Maratonamos nossos dias em busca de finais, o menos importante.
A infância tem pressa, e o desejo de aprender passa rápido. Falta uma dose de ingenuidade, há muitas coerências; falta um pouco de não saber, ficam as certezas. Ilogicidade.
Falta curiosidade e apetite. Não há espaço vazio para criar. O “menos” está faltando, para que apareça o testamento. Falta o mistério, pelo desejo de acontecer.
Falta o cochilo involuntário, a distração, as brechas para surpresas. Não há cabeça vazia na hora de dormir e, imerso em uma mente que nunca descansa, é preciso poder sonhar. Sonhamos menos enquanto dormimos, sonhamos menos enquanto estamos acordados.
Não há quebras nessa orquestra bagunçada, sem diretor, sem maestria, onde todos os instrumentos são tocados ao mesmo tempo. Você não sabe quando silenciar, porque silenciar é tão importante quanto acertar as notas certas.
Com tantos gols, o objetivo está perdido. Com tantos caminhos, você se perde. Com tantas coisas em mãos, as expectativas se perdem. E o tempo é curto, as estradas são curtas, sem direito a paragens e paisagens para contemplar.
Falta muito porque ainda falta muito. Há filtros, exposições, imagens estáticas, reuniões virtuais, emojis, curtidas. Você precisa aproveitar a vida, a real.
Há muitos dedos para deslizar nas telas, sem dedos para deslizar nos corpos, segurando canetas e livros. Falta papel, pele, cheiro, calor. Falta de privacidade.
Há muita informação, tarefas, estímulos, referências. Mas o excesso de informação desinforma; muitas tarefas são improdutivas; o excesso de estímulos aliena; o excesso de referências enlouquece.
Não é com os excessos que os vazios são preenchidos. Mais do que isso: alguns espaços existem justamente para não serem preenchidos.