07/02/2023
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{a que mora em mim, em você, em nós.}
No dia que marca o início da Invasão Euro-Cristã em Abya Yala, desejo que todas as crianças amarelas sejam presenteadas com a verdade histórica para que a consciência racial desperte antes dos primeiros traumas, e que ao menos essas informações sobre nós, possam servir de algum acolhimento futuro, sinalizando ao seu coração que o estranhamento presente sobre si e as dores do não-pertencimento no mundo são violências coloniais, cuja autoria é branca, e que não há problema nem defeito em seus olhos, seu corpo, sua existência, e que a beleza também é amarela.
Gostaria que esse texto fosse um abraço, um acalanto para acalmar essa ansiedade que tão cedo te encontrará, sem aviso, como se o mal-estar colonial brotasse de dentro, tornando desconfortável permanecer por muito tempo em espaços com pessoas "normais", ainda que se esforce para acreditar que está tudo bem em ser exótico, depois de tantos anos respondendo e se questionando "mas eu não nasci aqui..?"
Escrevo para que você, criança amarela, saiba que pode desistir de ser "normal", mas alerto que ainda assim, perceberá um desejo insuportável, quase irrenunciável, de performar ser algo que não é, para sociabilizar e se encaixar no mundo branco, então agirá como branco, pensará como branco, sentirá como branco, até se esquecer do que nos trouxe ao mundo branco, ou seja, o fardo de não sermos brancos.
E quando se der conta de que as feridas coloniais também residem em você, desejo que essa mensagem te recorde de que não está só, e que o pertencimento não é uma sensação nem nunca foi algo dado, mas se trata de uma construção política que só se realiza coletivamente. E eu te convido, criança amarela, a desembranquecer o que sente e a desabitar o não-lugar para que o amar-elo possa nos pertencer e tingir nossas dores na luta por um mundo sem racismo, em que crianças negras e indígenas estejam vivas e sorridentes, daí veremos despontar no horizonte um feliz dia como um sol amarelo incandescente.
Com carinho...