Psicólogo Antônio Augusto de Almeida Lima

Psicólogo Antônio Augusto de Almeida Lima Aqui você vai encontrar conteúdos sobre psicologia, que etimologicamente , significa "estudo da alma (psique)".

Esta página abordará tudo que pode estar relacionado à alma humana: artigos acadêmicos, cultura, textos dos grandes mestres, etc...

Todo aquele que deseja se conhecer não tem como escapar das relações. É nas relações afetivas que o material inconscient...
26/10/2021

Todo aquele que deseja se conhecer não tem como escapar das relações. É nas relações afetivas que o material inconsciente vem à tona, através das projeções. Relacionar-se é ver-se no outro. Ninguém se conhece fugindo da vida, trancado no quarto. É preciso descer para o corpo a corpo da vida, para o atrito entre os corpos, e até mesmo viver os conflitos, que não são necessariamente negativos. Há um potencial criativo no conflito que não deve ser menosprezado. Além disso, todo aquele que se aprofunda na investigação da própria psique, acaba pouco a pouco se aproximando do coletivo,numa relação mais erotizada com as coisas do mundo. Eros aqui no sentido de desejo, paixão. O caminho do auto-conhecimento é também o caminho do interesse pelas pessoas e coisas do mundo. Um desabrochar na energia do amor.

ANTÔNIO AUGUSTO DE ALMEIDA LIMA - PSICÓLOGO CLÍNICO-
CRP: 05- 41653 WHATSAPP: (21)971916392

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Ninguém está sozinho na grande aventura do autoconhecimento. Existem forças inconscientes, que habitam todo homem, sempr...
16/10/2021

Ninguém está sozinho na grande aventura do autoconhecimento. Existem forças inconscientes, que habitam todo homem, sempre dispostas a ajudar aquele que se propõe a encontrar aquilo que é de verdade. Os mitos formam a base do inconsciente. O deus Hermes, por exemplo não é ap***s um deus distante que habitou o imaginário dos gregos clássicos. Hermes é uma força psíquica, uma potência pronta a guiar as pessoas em direção ao seu material inconsciente, ao contato com sua Sombra. Ap***s a travessia da Sombra, dos aspectos rejeitados e negados da própria psique, pode possibilitar o contato da pessoa com uma dimensão mais plena, satisfatória, produtiva, criativa, prazerosa do próprio ser. Assim, como Hermes, diversas outros deuses estão presentes no inconsciente como forças amigas dispostas a ajudar quem quer que decida pela própria evolução pessoal. Faço o convite para que você também se aventure no fértil caminho do autoconhecimento.
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ANTÔNIO AUGUSTO DE ALMEIDA LIMA - PSICÓLOGO CLÍNICO (abordagem junguiana)- CRP: 05- 41653

01/10/2021

IMAGENS ALQUÍMICAS NA OBRA DE JACKSON PO***CK

INTRODUÇÃO

Os primeiros cinquenta anos do século XX foram um período de intensas e dramáticas transformações. Sara Gomes Garcia (Garcia, 2014) lista alguns acontecimentos que teriam sido cruciais para o desenvolvimento da arte da época e do período imediatamente posterior: a Primeira Guerra Mundial, a ascensão dos fascismos, o estalinismo, a Guerra Civil espanhola, o nazismo, a Segunda Guerra Mundial, a explosão da bomba atômica. Os artistas da época foram atravessados por esse clima de opressão, incertezas e destruição. Já não fazia muito sentido representar através da arte um mundo que já se tornava intangível. Começou, então, um novo movimento: os artistas passaram a produzir imagens que já não falavam das coisas exteriores previamente postas, mas tornavam-se expressões de um mundo interior ainda não revelado. Esse admirável mundo novo era o inconsciente.
Jackson Po***ck foi um desses artistas que foi buscar nas profundezas do inconsciente o material imagético de suas obras. A própria técnica de pintura desenvolvida por Po***ck em seu período expressionista-abstrato, o dripping, favorecia essa expressão espontânea do inconsciente. O dripping consistia numa técnica de gotejamento sobre a superficie da tela, a partir de movimentos rítmicos que se assemelhavam a uma dança. Po***ck subia na superfície da tela e engajava todo o seu corpo no trabalho, o que levava a uma profunda imersão na execução da tela. Nesses momentos, Po***ck dizia que tudo fluia naturalmente e aos poucos ia se clareando aquilo que estava sendo produzido. Uma das primeiras telas do período inicial do Expressionismo Abstrato, e também uma das mais conhecidas de toda a obra de Po***ck é “Alquemy”. O título foi dado por vizinhos de Po***ck numa sessão em sua casa destinada ao batismo das obras. Esta tela traz as cores das fases alquímicas mencionadas por Jung no Psicologia e Alquimia e ampliadas por Hillman em seu Psicologia Alquímica. O presente trabalho irá abordar essa tela a partir da contribuição de Hillman, lançando um olhar não só sobre as as cores, mas também para alguns elementos simbólicos que surgem na obra, como números, por exemplo.
Devido ao seu alcoolismo e a uma crise severa de depressão, Po***ck ingressou no hospital psiquiátrico de Westchester, em 1939. No hospital, Po***ck teve a oportunidade de iniciar um trabalho psicoterapêutico com Henderson, psiquiatra junguiano que apresentou ao artista as ideias de Carl Jung, e que é autor de um dos capítulos do livro O Homem e seus Símbolos. Foi provavelmente Henderson que apresentou a Po***ck as ampliações de Jung a respeito da alquimia. Jung encontrou na alquimia uma metáfora perfeita para a psicologia analítica. O trabalho dos alquimistas ao manipular metais, o uso que faziam do fogo para permitir as transformações, produzindo calor, a busca do ouro que não era o vulgar a partir dos metais menos nobres, como o chumbo, as diversas fases de morte e renascimento vividas pela matéria na Opus alquímica, forneceram imagens que posteriormente Jung relacionou ao trabalho analítico. Po***ck entrou em contato com essas referências imagéticas ao explorar a obra do psiquiatra suíço.
Entre os críticos de Po***ck, há uma discussão sobre se as imagens simbólicas de boa parte da obra do pintor é resultado de uma manipulação consciente dessas referências junguianas, ou se elas brotaram como autênticos arquétipos do seu inconsciente. Se levarmos em conta algumas declarações dadas pelo próprio Po***ck, somos levados a acreditar na segunda hipótese. Pol-lock já disse certa vez que a “raiz de seu trabalho é o inconsciente”, e que quando começava a criar uma tela não tinha ideia clara do que queria fazer. Evelyn Toynton (2012, pág.9) diz que a “primeira experiência de Po***ck com a psicanálise foi além da exploração de suas próprias experiências de infância, para alcançar a região do mito universal e da metafísica.” Toynton (2012) acrescenta que o analista junguiano de Po***ck relacionou as figuras “angustiadas, desmembradas e aleijadas” dos desenhos que ele submeteu à sua apreciação, não a eventuais temores de castração como talvez fizesse um freudiano, “mas ao estado de espírito de alguém que, engajado em um rito de iniciação tribal, está passando por uma transição dolorosa, ou entrando em estado de transe”. Essa transição relatada por Henderson pode se referir aquelas transformações que acontecem na alma humana durante o processo de individuação, para as quais tão bem se presta a Opus alquímica como metáfora. Alquimia é transformação, transição, por vezes bem dolorosa. Segundo Elizabeth Langhorne (2014, pág.1), em um nível, o esforço alquímico “foi uma proto-química; de outro, uma busca psicológica: assim como o chumbo se transmuta em ouro, a alma se purifica.” Ainda de acordo com Langhorne (2014) esses dois aspectos da alquimia, como mudança psicológica e como transformação da matéria, estão intimamente ligados na pintura de Jackson Po***ck. Os críticos de Po***ck abordaram em seus textos vários dos símbolos alquímicos que surgem na sua obra. O presente trabalho procurará reunir alguns desses símbolos e lançar sobre eles um olhar analítico a partir dos pressupostos junguianos e pósjunguianos.

PRIMA MATERIA

Elizabeth Langhorne (2014) enxerga no desenho CR 704, presente de Po***ck para seu primeiro biógrafo, B.H, Friedman, uma imagem da serpente urobórica que morde o próprio rabo, o dragão alado. Jung (2015) considerou o dragão alado como um símbolo da prima materia. De acordo com Jung (2015) , a prima materia é a base da Opus alquímica, e um dos segredos mais importantes da alquimia, representando “a substância desconhecida portadora da projeção do conteúdo psíquico autônomo” . (Jung, 2015, § 425) Está relacionada ao Uno, antes de ser dividido nos quatro elementos. A prima materia é também chamada de “terra do paraíso”, a mesma que Adão carregou consigo ao ser expulso do Éden. A prima materia é hermafrodita, uma terra indiferenciada que terá seus opostos separados pela consciência. Elizabeth Langhorne (2014) cita Jung: “o dragão simboliza a experiência, a visão do alquimista que trabalha no laboratório e 'teoriza'. O dragão como tal é um monstrum - um símbolo que combina o princípio da terra e o princípio do ar do pássaro. Langhorne diz que o dragão representa tanto a prima materia como o espírito divino presente nela. O destino da prima materia será o lapis ou ouro, após ser submetida à circulatio sugerida pelo “mordedor de cauda”.
“ Jung apresenta o processo transformador da alquimia como a principal metáfora do processo psicológico de "individuação"” (Langhorne, 2014, pág.3). E Po***ck se submeteu à análise junguiana entre 1939-43. Po***ck tinha episódios de depressão e humor variável, além de problemas com alcoolismo, e procurou ajuda durante uma crise. Langhorne diz que em 1943, o artista estava aberto à criação de mitos, em particular ao mito alquímico, com sua promessa de integração psicológica. Apesar de ter entrado em contato com a obra de Jung e a alquimia através de Henderson, Po***ck pode ter visto a imagem do dragão alquímico no livro A Integração da Personalidade, um exemplar que Lee Krasner, sua ex-esposa na época e personagem importante de sua trajetória, levou para o apartamento do pintor quando para lá se mudou. Um outro elemento importante do desenho é a adaga empunhada pela figura protagonista do quadro. Langhorne identifica essa figura como fêmea, embora não haja uma referência pictórica explícita que possa facilitar a identificação de seu gênero. Há a palavra “mulher” escrita na lateral do quadro, junto à “cobra”, “vida”, “esforço”, “realidade” e “total”, palavras que podem estar fazendo referência à prima matéria de Po***ck e também ao trabalho alquímico. São conhecidos os problemas que Po***ck tinha com as mulheres, tendo demorado a se relacionar verdadeiramente com uma, e em especial com sua mãe, que tinha por ele um amor sufocante. Quando estava próximo de sua mãe seus sintomas costumavam piorar. A imagem da figura levando um punhal contra seu próprio corpo pode ser uma referência à separação necessária dos opostos da prima matéria. Langhorne (2014, pág. 9) esclarece que “a unidade inicial indiferenciada do dragão, prima materia, "o hermafrodita do ser incipiente", deve ser dividido para produzir "um par de forças opostas, geralmente consideradas como os princípios masculino e feminino". Esta fundamental separação se dá com violência. Na alquimia tudo é Uno, até que há a separatio, simbolizada pelo surgimento dos 4 elementos na natureza, e por fim o retorno ao Uno, que é o final da meta, o lapis da Rubedo.
Nesta tela surgem ainda números: 13, 4 e 6 além de um signo gráfico em forma de asterisco. O 13 é formado pelo 1 e pelo 3, uma referência à trindade e à unidade. O Uno, como já visto, está no princípio e no fim do trabalho alquímico e tanto pode se referir à prima matéria como ao lapis filosofal. E o 3 pode ser ser relacionado ao masculino e também a uma psique incompleta, que não completou a integração de seus aspectos femininos inconscientes ou que ainda não incluiu o mal. A soma do 1 e do 3 resulta em 4, símbolo da quaternidade, que por sua vez representa a totalidade.
O motivo da separação dos opostos reaparece em outra obra de Po***ck, “Moon woman cuts the circle”. Langhorne descreve a tela em detalhes:
No centro superior da tela, vemos uma
adaga de lâmina amarela. A lâmina que-
bra a forma circular estabelecida pela fi-
guração vermelha à sua direita e esquerda:
uma cabeça vermelha com dois olhos [seta]
e cocar de p***s brancas na parte superior
direita, um "braço em crescente" vermelho
balançando para cima na parte superior es-
querda. Aqui, a natureza hermafrodita da
mulher se manifesta quando realiza o ato de
autoimolação: a cabeça vermelha da mulher
lua com o vestido de p***s na cabeça assu-
mindo a aura de um índio americano em tra-
ajes rituais, o braço em forma de lua crescen-
te exercitando a violência ritual.
(Langhorne, 2014, pág.10)
Empunhando a adaga, a Mulher da Lua corta o próprio ventre, para liberar um fluxo de diamantes para cima e para baixo, no que Langhorne (2014) chamou de “cesariana selvagem”. Os diamantes podem ser uma referência à pedra, meta final da alquimia, que jamais será alcançada totalmente, mas que precisa estar na mira para que se processem as importantes transformações da psique durante o processo de individuação.

ALQUEMY

Foi durante o ano de 1947 que Po***ck elaborou sua técnica revolucionária chamada “dripping”. Com esse novo procedimento inventado por ele, deu início ao movimento conhecido como “Expressionismo Abstrato”. Alquemy foi uma das primeiras telas produzidas a partir desta técnica. Seu nome foi dado pelos vizinhos de Po***ck, chamados à sua casa para uma sessão de batismo das obras. Em “Alquemy”, podemos ver as 3 principais cores das fases alquímicas, e também aquelas cores menos lembradas nos livros, mas que também fazem parte do trabalho e foram abordadas extensamente por Hillman no seu Psicologia Alquímica. Predominam o preto e o branco, e isto coincide com o fato de que na alquimia estas são as duas cores consideradas verdadeiramente primárias. Em seguida surge o vermelho, que não sem motivo também é a terceira cor mais predominate na tela. Logo atrás, vem o amarelo e em seguida o azul.
Hillman (2011, pág.8) diz que a “alquimia pensa por meio de imagens, mas imagina por meio de cores”. Hillman se refere a processos de coloração da alma, nos quais ela própria é tingida e também tinge o mundo e suas experiências. “Tingimento na alquimia significa mudança de estado, indica a transmutação.” (Hillman, 2011, pág.8) Polcari (2007) vê no trabalho artístico de Po***ck um movimento em direção a um crescimento. É viável pensar nessas cores da tela representando diferentes processos simultâneos que se passam no interior do artista, transições de Po***ck na busca de seu auto-conhecimento. O trabalho alquímico não é linear, embora as fases do processo alquímico costumem ser apresentadas linearmente. Circulatio, rotatio, iteratio, sugerem um movimento circula-tório, com muitos retornos, repetições. Também aqui a alquimia se presta como metáfora da clínica junguiana, uma vez que Jung já descreveu o movimento circumambulatório que costuma ser característico do processo de individuação. Po***ck vivia dramas intensos familiares, com mãe , esposa, sofria de alcoolismo, apresentava humor variável, e crises de depressão, temas de nigredo sem esforço, mas também era capaz de iluminações, insights, frases espirituosas (embora fosse raro que falasse de suas próprias obras com eloquência), mais próprias de albedo ou mesmo rubedo. Não que Po***ck estivesse sequer perto de alcançar a meta alquímica, ou tivesse completamente integrado o self junguiano, mas transitava na tensão destes opostos, o que muitas vezes lhe causava sofrimento. Po***ck teve um fim trágico, ao sofrer um acidente automobilístico depois de uma bebedeira, mas não deixou de cumprir ao seu modo o seu caminho de auto-conhecimento.
Hillman nos diz:

As cores na alquimia revelam processos na
alma: do preto da decomposição (nigredo)
ao branco da clara reflexão albedo), passan-
do pelas transições de azul e amarelo, para
atingir aquele vermelho próprio da matéria
almada e das condições pulsantes e vitais da
existência (rubedo) - a pedra filosofal.
(Hillman, 2011, pág.8)

Hillman (2011) diz que entre os povos da região ao sul do Sahara, as três cores primárias - preto, branco e vermelho- formam o princípio governante do cosmos. Nas gunas da cosmologia indiana surge uma ideia parecida: tamas (preto), raja (vermelho) e satva (branco), são componentes de tudo que há no mundo. De acordo com Hillman (2011, pág.127), “para a cultura, preto e branco, e também vermelho, precedem e determinam o modo como a vida humana é vivida.” Hillman completa:” As cores apresentam a realidade fenomenal do mundo, o modo como ele se mostra e, como agentes operativos no mundo, são princípios formativos primários.
Segundo Hillman (2011), ap***s uma visão reduzida à fisica pode considerar o preto uma não cor. Ele opõe a essa ideia, o fato do preto poder ser enxergado em plena luz do dia em pigmentos naturalmente dados ou em outros fenômenos, do carvão aos olhos dos animais. Hillman (2011) alerta para um perigo da negativação do preto, que seria a moralização do par preto-branco, onde o preto seria o aglutinador de todas as características negativas, como sujeira e maldade, alienado de todo bem como uma privatio boni e o branco seria até divinizado, carregando todas as boas qualidades. Hilmann diz que o preto tem uma importância fundamental como base da obra, e é a cor relacionada à nigredo. Nigredo, na alquimia, seria a fase da opus em que os metais são mortificados, em que há até mesmo uma putrefação das substâncias, os processos são lentos, repetitivos. De acordo com a metáfora proposta por Jung, na psicologia analítica nigredo corresponderia aquele momento de pura escuridão, quando somem os significados, quando é exigido do analista e do analisando um esforço extremo. Costuma ser relacionada com o início do trabalho analítico, embora Hillman (2011) diga que a nigredo não é um começo, mas é o resultado de um trabalho exaustivo. As duas principais fases da nigredo- mortificatio e calcinatio- quebram a coesão interna de qualquer estado fixo. Hillman aponta que o preto “faz desaparecer as estruturas fundamentais de segurança da consciência ocidental.” O preto desconstrói tudo aquilo que consideramos real, como dúvida, pensamento negativo, suspeita, destruição, falta de valor. Dessa desconstrução surgem as condições necessárias para que ocorram as desejadas transformações.
Por sua vez, “o azul tem uma afinidade tanto com o preto quanto com o branco, tanto nigredo quanto albedo”. (Hillman, 2011, pág.148). Quando se transita do preto ao branco, o azul surge do desespero como uma tristeza, à medida que ele se torna reflexão. O azul traz os traços da mortificação para a albedo. Não deixa que as coisas sejam esquecidas. De acordo com Hillman, as torturas e sintomas da mortificação dão lugar ao luto. O azul impede que a albedo se transforme numa árida inocência, é ele que permite o sombreamento do branco, que permite que algo do preto permaneça no branco. “Algo deve incorporar à albedo uma ressonância ou uma fidelidade ao que aconteceu e transmitir o sofrimento com uma outra tonalidade: não como uma dor opressiva, como decadência e como a memória da depressão, mas como valor.” (Hillman, 2011, pág.164) É o sombreamento do azul que permite que as reflexões se transformem em imagens saindo do confinamento obscuro da nigredo.
O branco da albedo se refere à prata alquímica como um estado da consciência resultante do trabalho na alma. Trata-se de um resfriamento depois do exaustivo sofrimento quente da nigredo. Hillman acrescenta que o pratear e o branquear, referem-se aos processos de lustro, calcinação, coagulação, capazes de fazer surgir uma condição branca e brilhante no material. Hillman (2011) lembra que a prata da albedo refere-se ao brilho total da lua, sua completude ou elevação, sendo o metal de uma grande luz. A capacidade de refletir está ligada à prata, mas é mesmo essa habilidade que pode se tornar o preço do metal: a depressão. Hillman diz que quanto mais reflexão branca é produzida, mais se aumenta o chumbo. Por outro lado, é por refletir que a prata garante a criação de imagens. Hillman traz uma bonita definição para a albedo, também chamada de Terra Alba: “uma transição da alma entre o desespero e a paixão, entre o vazio e a completude, o abandono e o reino.”
Nas palavras de Hillman (2011, pág. 328), “o amarelo traz a dor do próprio conhecimento. A alma sofre sua própria compreensão.” Com o aumento da clareza e da coagulação, o intelecto se amarela com as reflexões que vêm de dentro, sobre ciúmes, inveja, covardia, medo, envelhecimento, preconceito, decadência. O intelecto se amarela com a consciência das próprias emoções. “O amarelecimento resgata a alma da brancura da reflexão psicológica e seus insigths.” (Hillman, 2011, pág.338). Hillman diz que se a prática psicológica negar o amarelecimento, jamais será capaz de deixar o psicologizar, nunca irá se avermelhar no mundo exterior, que é onde estão nossas desordens reais. Além dos aspectos obscuros já mencionados que estão relacionados ao amarelo, a cor também abriga “significados brilhantes e alegres trazidos da natureza: grão maduro, nascer do sol, gema de ovo, flores primaveris.” (Hillman, 2011, pág. 345) Hillman tentou mostrar que no amarelo tanto os significados obscuros quanto os luminosos acontecem simultaneamente, não sendo possível dividir o amarelo em metades claramente opostas.
Já o vermelho, ou avermelhamento, é a cor da meta, da pedra, do ouro alquímico que não é o vulgar. Corresponde à fase rubedo da alquimia, De uma condição da alma que integrou seus opostos, e agora está pronta para se relacionar libinosamente com o mundo. É o casamento de rei e rainha vermelhos. Hillman (2011), diz que o vermelho está ligado a uma relação com os objetos do mundo movida pela libido, mas uma libido erotizada, que se afasta um pouco da ideia de libido proposta por Jung. Avermelhar-se é voltar-se para fora, se apaixonar pelas coisas e pessoas do mundo. A fase rubedo tem sido relacionada com a ideia de UNUS MUNDUS, da unidade experimentada a partir da união dos opostos, representada pelo Uroboro, a serpente que come o próprio rabo. Inclusive, Jung também relaciona o avermelhamento à ideia de unidade. Hillman apresenta um outro olhar sobre este aspecto, ao dizer que o UNUS MUNDUS como meta só se justifica se for banhado de sensualidade, se tocar os sentidos e for experimentado como uma realidade libidinal, uma realidade de Afrodite. É uma ideia que se aproxima de uma certa maneira da visão hinduísta, que diz que ao alcançar a unidade e integrar seus opostos, o homem atinge êxtases ao experimentar Deus em todos os objetos do mundo, se torna um enamorado de todas as coisas. Jung (2015) já disse que a meta na alquimia é importante ap***s como uma ideia. Hillman acrescenta: “ Não precisamos tomar imagens do hermafrodita, do ouro ou da pedra vermelha como eventos reais.” A meta como ideia, de acordo com a proposição de Jung, é importante para lançar a psique na Opus. As promessas precisam ser maravilhosas, ouro, e pérolas, elixires e pedras curativas de sabedoria, para que possamos nos sentir motivados a permaneçer na longuíssima via chamada vida, e desafiar, como diz Hillman, o desespero plúmbeo, as mortificações torturadas, as putrefacões na lama e os fogos corrosivos.
Hillman (2011) diz que libido vem de labios, e significa os “gotejamentos do prazer”. Diz ainda que libido pertence a um grupo de palavras que inclui a libação como o verter de um líquido: “deliquare (tornar liquido, derreter); laetus (úmido, gordo, frutífero, contente); e o alemão lieben, amar; assim como liber (livre), o Deus Liber, a figura procreativa da fertilidade (Hillman, 2011, pág.394). É impossível dissociar essa imagem dos “gotejamentos do prazer” , proposta por Hillman, da técnica inventada por Jackson Po***ck, o dripping. O dripping consistia exatamente de gotas vertidas de recipientes com tintas que Po***ck distribuia por seus quadros com movimentos ora extensos, ora curtos, cheios de ritmo. Muitas vezes os movimentos de Po***ck ao pintar foram relacionados a uma dança. E as gotas de tinta caindo e se esparramando pela tela já foram aproximadas à ejaculação. Po***ck foi considerado o “cowboy” das artes, até por ter vivido parte de sua vida no oeste americano, e havia uma aura viril em torno de sua imagem pública. E eram viris os movimentos de Po***ck, andando vigorosamente sobre a tela ao espalhar a tinta que originaria suas obras. Elizabeth Langhorne (2014, pág.19) diz que no jogo dos opostos de Po***ck, “o espiritual participa do instintivo, e vice-versa”, o masculino se mistura com o feminino. Langhorne (2014) continua e diz que de uma maneira absolutamente original, o derramamento de Po***ck abre a pintura para uma dimensão erótica do processo de pintar. O olhar hillmaniano sobre a rubedo aproxima a obra de Po***ck desta fase. Poderíamos dizer que se na vida de Po***ck há algo de rubedo seria mesmo no momento em que executava suas obras. O próprio Henderson, seu analista junguiano, disse que o que considerava cura na análise de Po***ck, ou seja, o que pensava ser sua meta era o seu crescimento como artista, o seu encontro com a própria originalidade. Quando criava, Po***ck era a natureza, como afirmou a um amigo certa vez. Era flagrante o interesse de Po***ck pela arte dos índios americanos, que entravam numa espécie de transe ao criar suas obras artísticas. Quando pintava uma tela, Po***ck estava completamente imerso no ato criativo. Evelyn Toynton (2012) diz que Po***ck não tinha esquemas prévios na cabeça antes de produzir uma obra, e ele me mesmo já disse que não estava muito consciente do que seria produzido ao iniciar uma tela. Po***ck afirmava que sua obra vinha do inconsciente. Entre os críticos, há aqueles que acreditam que Po***ck utilizou conscientemente as imagens junguianas e alquímicas na sua obra, como um artifício para extrair estilo, e os que acreditam na espontaneidade das imagens arquetípicas de suas telas, sendo produtos do inconsciente. De um modo ou de outro, é fato o grande número de referências alquímicas e junguianas na obra de Po***ck. Além das obras abordadas neste trabalho, poderíamos citar várias outras, como Birth, tela que marcou sua recuperação após sair de um hospital psiquiátrico, que remete ao tema do renascimento; Bird, que traz imagens como a serpente urobórica da prima matéria, o ovo alquímico, e a serpente emplumada, entre muitos outros. Seja como produto do inconsciente ou como recurso estilístico, é indiscutível a importância que a alquimia e a psicologia junguiana tiveram para o trabalho e a vida de Po***ck, determinando uma virada crucial na concepção de sua obra.

BIBLIOGRAFIA

DA SILVA, Sara G., “Jackson Po***ck e a Descoberta do Inconsciente na Arte Americana do Pós-Guerra” Ars; (Novembro, 2014): 21-39
HILLMAN, James, “Psicologia Alquímica”; Petrópolis: Editora Vozes, 2011.
JUNG, Carl, “Psicologia e Alquimia”;Petrópolis: Editora Vozes, 2015.
LANGHORNE, Elizabeth, “Po***ck, Picasso and the Primitive”;Art History 12 (Março 1989):75.
POLCARI, Stephen, “Jackson Po***ck - Mass Man Agonist”; Nova Iorque: [s.n.], [200 - ?].
TOYNTON, Evelyn, “Jackson Po***ck”; Yale:Yale University Press, 2012.

Complexo é um termo do jargão junguiano que já foi assimilado pelo linguajar popular. Todo mundo já ouviu falar em compl...
10/12/2020

Complexo é um termo do jargão junguiano que já foi assimilado pelo linguajar popular. Todo mundo já ouviu falar em complexos. Quando alguém não acredita muito em si mesmo, é inseguro e se sente diminuído em relação às outras pessoas dizemos logo: “Hi, Fulano tem Complexo de Inferioridade”. O número de complexos é tão vasto quanto a variedade de experiências humanas. O interessante é que quando falamos “complexo de inferioridade”, no senso comum, estamos muito próximos da verdade. De fato, um complexo de inferioridade pode englobar todas essas peculiaridades citadas acima. Complexo é o nome dado por Jung a um conjunto de sentimentos, afetos, pensamentos, sensações, percepções que se reúne na psique em torno de um tema. Este tema aglutinador pode ser a mãe , o pai, o irmão, o avô, algo mais abstrato, como superioridade, inferioridade, maturidade, imaturidade, algum hábito cotidiano como atrasar-se constantemente, por exemplo, qualquer coisa que faça parte do vasto repertório da experiência humana pode dar nome a um complexo. Já deve ter dado para perceber como esse assunto é importante para qualquer pessoa, não é mesmo? Principalmente se tivermos em mente que um complexo pode até mesmo subjugar totalmente a vida de um indivíduo. A pessoa passa a agir de uma maneira totalmente desconectada daquilo que é sua verdadeira natureza. Possivelmente, você, que lê esse texto nesse momento, já deve ter falado aquela palavrinha fora de hora, que por sua vez deu origem a algum desentendimento mais sério, ou simplesmente fez coisas que, passado algum tempo, o levou a se perguntar: “mas fui eu mesmo que fiz isso?” Isso acontece porque os complexos são como personalidades autônomas dentro da psique individual. Pode parecer um pouco assustador, mas eles tem vida própria. Aos casos mais sérios, quando a pessoa se vê completamente submetida às forças do complexo, Jung deu o nome de “possessão”. A boa notícia é que um complexo só é perigoso enquanto permanece inconsciente. À medida que os conteúdos que formam o complexo são trazidos à consciência, o complexo vai se enfraquecendo, e libera energia para ser aplicada em atividades produtivas. E é aí que a terapia entra na história. Os complexos são revelados através dos sonhos, sincronicidades, e mesmo atos falhos. Uma simples brincadeira, aparentemente banal, pode, se observada com um olhar mais penetrante, revelar um sentido crucial para a vida de uma pessoa. Com a ajuda de um bom terapeuta, é possível acessar esses conteúdos e traduzir sua linguagem para que sua mensagem se torne clara e ao alcance de todos. É um trabalho em conjunto onde duas almas se entregam, inteiramente, ao processo de individuação do paciente. Um trabalho que também irá repercutir na individuação do próprio analista. O terapeuta irá ajudá-lo a extrair dos seus sonhos e outras expressões do inconsciente o sentido que irá guiá-lo ao encontro daquilo que há de mais original em você. A sua verdadeira potência, que sempre esteve presente, mas que pode estar escondida atrás de sua sombra, como um diamante oculto na pedra. Como diz Caetano Veloso, “ser humano foi feito para brilhar”, e nós não podemos nos contentar com nada menos do que isso. Está à sua mão ser exatamente aquilo que você é. Desfrute-se.

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