04/02/2026
A depressão não é moda.
Quando Kurt Cobain agonizava nos palcos, num claro prenúncio de sua morte, o mundo ignorou. Julgaram ser apenas uma forma de chamar atenção, como se um astro do rock, no auge do sucesso, precisasse de tal apelo. Não entenderam que era o oposto: o líder do Nirvana queria fugir da fama que o consumia.
O jovem ídolo explodiu os próprios miolos, assim como fez Ernest Hemingway e Hunter S. Thompson. Em sua longa carta de despedida à esposa e à filha, Kurt escreveu:
“Eu não sinto mais a excitação de ouvir, criar música, ler e escrever há muitos anos. Sinto-me culpado por isso além do que posso expressar em palavras.”
E eu sei muito bem do que ele estava falando.
Muitas vezes, saímos da frequência que rege um mundo que não escolhemos. A barra pesa, a dor grita alto, e o silêncio ao redor se torna assustador. A vida é mais árdua para uns do que para outros, e isso é um fato. Não julgue o caminho do outro se você nunca calçou os sapatos dele e caminhou quinhentos metros. Se você tem saúde, trabalho, família e felicidade, agradeça e reflita: nem todos recebem essa dádiva. Talvez seja hora de retribuir suas bênçãos.
Van Gogh, hoje celebrado como gênio, foi tratado como louco e desprezado em sua época. Virginia Woolf afundou num silêncio tão profundo quanto suas palavras. Robin Williams sucumbiu à própria dor, e Bourdain nos deixou seu último e mais amargo prato.
O que levaria uma mulher linda, famosa e desejada como Marilyn Monroe a desistir da vida? O mesmo pode ser perguntado sobre Chris Cornell, talentoso e carismático, que também partiu cedo demais.
Os sinais da depressão quase sempre estão visíveis — especialmente nas redes sociais — mas poucos os percebem, ocupados demais desejando a vida daqueles que, por dentro, estão consumidos pelo fogo da angústia. Seriam a fama, o poder, o dinheiro, as viagens e os amantes sinais de glória? Seria isso, de fato, o sucesso?
A felicidade, assim como a morte, permanece um mistério. O palhaço continua pintando o rosto para esconder as lágrimas, arrancando sorrisos da plateia, enquanto sua própria dor permanece invisível. Para alguns, a vida se esvai um pouco a cada dia, ao despertar e presenciar a degradação da civilização e o apogeu da estupidez humana — essa, sim, infinita, como bem ponderou Albert Einstein.
Como ser feliz em um mundo infeliz? Como lutar por riqueza e poder enquanto tantos à sua volta passam fome, frio ou simplesmente carecem de uma chance, de um abraço? Não seria isto puro egoísmo?
Não há outro inferno para o homem além do mundo em que ele habita. A dor está contida no olhar e só é percebida por aqueles que possuem a sensibilidade de enxergar além das aparências e do espetáculo da futilidade que o mundo insiste em ostentar.
A depressão não é moda; é realmente o mal do século. Remédios aliviam como uma noite regada a álcool, mas a ressaca da dor e do vazio persiste.
Talvez a cura do seu vizinho esteja mais próxima de você — e do seu poder — do que imagina. Tente enxergar isso enquanto há tempo. Estenda a mão antes que a única coisa que lhe reste seja jogar o último punhado de terra com a outra mão.
A depressão é silenciosa, mas seu grito, quase sempre, é fatal. Dê sua mão.
(A Toca do Lobo )