02/12/2025
O COMO
(texto produzido por Regina Favre para compor com Flavia Liberman e Glenda Milek em um texto maior sobre um grupo de bordado realizado no departamento de Terapia Ocupacional da UNIFESP, Campus Baixada Santista, a ser publicado na revista Interfaces, UNESP)
Há décadas venho sendo procurada por terapeutas ocupacionais, do campo daqueles profissionais que pensam a terapia ocupacional como arte, clínica e política, entre estes, muitos docentes, muitos trabalhadores da Saúde Publica. Essa afinidade entre o meu campo, do processo formativo, e o campo da terapia ocupacional, foi se desvendando, ganhando consistência e se desdobrando em diferentes situações, composições, projetos e diálogos onde a profunda afinidade e a coincidência de origens foram se condensando em torno da importância total do COMO, no olhar do COMO, na prática do COMO. O COMO é o que importa a ambos os campos. Partimos da ação. Nascemos no mesmo berço do pragmatismo americano no início do século 20 e praticamos a estética da ordinariedade.
John Dewey é um dos três criadores do pragmatismo, juntamente com William James e Pierce. A educação e o aprender para a vida pautam essa filosofia, evidenciando que o fazer e o como fazer são a espinha dorsal dessa filosofia democrática que inspirou inúmeras políticas humanistas nos tempos do governo Roosevelt, tempos prósperos e democráticos. E com esse foco evidencia-se, então, que o coletivo é a ecologia onde corpos desenvolvem suas vidas. Para a ética pragmatista não basta pensar, o coletivo pede uma filosofia prática, encarnada, onde se aprende fazendo o que se faz ( crianças fazendo hortas nas escolas, alunas da UNIFESP bordando). Que se nutra o agir, que se reconheça a diferença, que se compartilhe os modos e os comos, que se cultive conexão, que se amadureça para a cooperação , que se pratique a inteligência coletiva. Essa é a filosofia de Dewey.
Stanley Keleman, geração da Psicologia Humanística americana, desenvolveu nas seis décadas que se seguiram ao seu surgimento no campo das psicoterapias e filosofias somáticas, nos anos 50, quando formatou e apresentou sua filosofia, sua prática somática e sua clínica formativa. Todos sabem que nessa década o corpo se impôs como um campo de estudo e uma infinidade de métodos e teorias emergiram no mercado da educação, da clínica, da filosofia. Distanciando-se da herança de Reich e de todo um campo de terapias e filosofias que honravam a psicanálise, Keleman organizou seu pensamento reconectando-se a sua raiz filosófica americana sobretudo ao pragmatismo de William James. Sua compreensão dos conceitos básicos do pensamento da psicologia de James , fluxo, estrutura, hábito, emoção e vontade, absorvidos de Nina Bull, sua tutora na universidade de Columbia, a neurocientista pesquisadora do comportamento, alicerçaram o que viria a seu o Pensamento Formativo.
O Processo Formativo é o impulso do processo evolutivo planetário que segue em cada corpo no seu processo particular de levar-se adiante no tempo. A Filosofia Formativa de Stanley Keleman mostra como esse desejo de prosseguir se expressa no modo como os corpos geram sempre mais corpo e mais mundo, criando novas conexões com os ambientes e voltando sobre si para ajustar-se e assimilar cada nova forma de funcionamento que emerge em sua continuidade. O Processo Formativo não segue por capítulos pré-determinados, mas impulsiona-se como um alargamento e um aprofundamento do processo de corporificação em curso na situação presente dos corpos que estamos sendo, aqui e agora.
Quando esse grupo de bordado estiver bastante adiantado no tempo , as pessoas poderão se perguntar, por exemplo, como dissolveram a timidez ou a vergonha de se expor em grupo aprendendo algo que não sabiam antes ou como aprenderam a ser mais relaxadas para compartilhar, aprender, ensinar, conviver com pessoas desconhecidas etc etc… como diz Caetano Veloso, "isso é um jeito de corpo". Um corpo para deixar de ser timido, por exemplo, precisa aprender várias operações ou "jeitos de corpo" para conter a excitação dos encontros dentro de si, para firmar melhor suas paredes corporais, para criar uma certa estabilidade interna diante dos outros, para regularizar a respiração, para não se deixar invadir pelas presenças e se perder de si. Tudo isso são jeitos de corpo, manejos de si através de micro movimentos sobre si.
No treino de se apropriar de modos e comos para executar ações várias interpretando-as como à partitura de uma música, novos comportamentos encaminham a continuidade da vida. Cada comportamento é o agenciamento de partituras somáticas, sejam eles práticos ou emocionais. A forma que vemos nos corpos é o COMO se dá sua conexão com o ambiente. COMO, COMO, COMO. Os corpos pedem um pragmatismo radical. Ao mesmo tempo em que lemos o sentido de um acontecimento, das ações e posturas dos corpos envolvidos nele, podemos identificar que se está fazendo para satisfazer o desejo de inclusão, de agir no mundo, de ser agente, de ser capaz de repetir tal ação e incluí-la no seu repertório. Estabilizar comportamentos, desmontar comportamentos, gerar sempre uma nova adaptação ao presente que funcione. COMO? Entre os inúmeros nomes que Keleman atribuiu ao exercicio formativo o mais significativo é Pratica do COMO, isto é, como um corpo configura anatomicamente aquilo que está fazendo, isto é, suas ações. A Anatomia Emocional de Keleman está longe de ser a anatomia das partes tal como foi inventada pelos caçadores, a anatomia de Vesalius ou a chamada "anatomia do açougueiro". Os comportamentos e modos de ser sujeito. nos seus menores detalhes, nos antecedem no que Keleman coincidindo com Felix Guattari, chama de pós-pessoal, têm uma forma clara que se expressa nas leis e nas narrativas. As coreografias das ações não param de se produzir no coletivo e nos jogos do poder. Nossos os corpos podem ser tomados por elas ou intepretá-los como um ator ou um musico interpreta algo de modo singular. O COMO é nosso grande aliado na produção de variação e diferença, nessa brava resistencia à constante captura dos corpos pelas forças dominantes, no campo social onde estamos mergulhados.
Regina Favre - 2024