03/01/2026
A heteronormatividade não atua apenas como regra social, mas como um discurso íntimo que ensina a amar com medo. Ela define não só quem pode amar quem, mas também como, quando e sob quais promessas esse amor deve existir.
Para pessoas LGBT+, o amor raramente começa em terreno neutro: nasce atravessado pela falta de reconhecimento, pela exigência de discrição e pela ideia de que o desejo precisa se justificar. Mas esse modelo não violenta apenas quem está fora da norma — ele também aprisiona casais heterossexuais em papéis rígidos, expectativas de desempenho e relações sustentadas mais por obrigação do que por desejo.
Ao prometer estabilidade, a heteronormatividade produz silêncio, renúncia e repetição. Quando o modelo vem antes do desejo, o amor vira contrato e performance. Clinicamente, isso faz com que o laço amoroso carregue o peso da legitimação.
Ainda assim, algo insiste. Historicamente excluídos, os amores LGBT+ foram levados a inventar outras formas de amar, colocando amor onde muitos colocam regras. Essa invenção não idealiza o amor, mas revela a fragilidade da norma: o amor não nasce da obediência, mas do risco e da escolha.
No fim, a heteronormatividade fracassa não só porque exclui, mas porque empobrece a experiência amorosa. O amor, quando existe, sempre encontra um jeito de dizer mais.
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146