01/02/2026
Como disse a cantora .oficial “Ciúme é acúmulo de dúvida, incerteza de si mesmo, Projetado, Assim jogado, Como lama anti-erótica…”
O ciúme não nasce do outro.
Ele nasce de um ponto frágil do sujeito diante de si mesmo.
Na experiência psicanalítica, o ciúme aparece menos como prova de amor e mais como efeito de uma relação mal resolvida com a própria falta. Onde há dúvida sobre o próprio valor, instala-se a vigilância do outro. Onde há incerteza sobre ser desejável, emerge a fantasia de ser substituível.
O que o sujeito não consegue simbolizar em si, suas inseguranças, sua sensação de insuficiência, sua dificuldade de sustentar um lugar no desejo, é projetado no parceiro. O outro passa a carregar a função de garantir aquilo que o sujeito não consegue sustentar internamente: “sou suficiente?”, “sou desejável?”, “sou digno de amor?”.
Nesse movimento, o outro deixa de ser um sujeito e passa a ser convocado como espelho, prova, garantia. E como toda garantia é impossível, o laço se torna tenso, acusatório, exaustivo.
O ciúme, então, funciona como uma tentativa de tamponar a falta. Uma defesa contra a angústia de não saber quem se é para o Outro. O problema é que, ao fazer isso, o sujeito cobra do parceiro uma dívida que não é dele: a responsabilidade por organizar o próprio narcisismo, curar feridas antigas, apaziguar fantasmas que antecedem a relação.
Há sempre alguém disposto a pagar essa conta, não por amor, mas por culpa, por medo de perda, por confundir cuidado com submissão. E assim se instaura uma dinâmica perversa: um paga o preço do que o outro não consegue elaborar.
A clínica mostra que o ciúme diminui não quando o outro se explica melhor, se prova mais, se controla mais, mas quando o sujeito consegue se responsabilizar por sua própria falta. Quando deixa de exigir do outro a função impossível de garantir sua completude.
Ciúme, no fundo, fala menos do amor e mais da dificuldade de sustentar o próprio desejo sem transformá-lo em cobrança.
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146