05/06/2019
Reflexões sobre o fragmento do Tratado I de Corpus Hermeticum.
"Um dia, enquanto refletia acerca dos seres, meu pensamento se elevou e todos os meus sentidos estavam como que entorpecidos, como acontece àqueles atingidos por um sono pesado pelo excesso de alimentos ou de uma grande fadiga corporal, pareceu que um ser imenso, sem limites, se delineava e me chamasse pelo nome, e disse: Que desejas ouvir e ver, e com o pensamento, aprender e conhecer?
E eu disse: Mas tu quem és?
Ele respondeu: Eu sou Poimandres, o Nous, a Inteligência Suprema, eu sei o que queres e estou contigo em todo lugar.
Agora eu disse: Quero ser instruído sobre os Seres, compreender a sua natureza e conhecer Deus.
Ele respondeu: Tenha em mente tudo aquilo que queres aprender e eu te ensinarei. Dito isto, mudou de aspecto e num instante tudo se abriu diante de mim. Tive uma visão sem limites e tudo se tornou luz serena e alegre, e ao contemplá-la me enamorei." (1)
Neste fragmento dos escritos herméticos nos é exposto de forma clara o percurso pelo qual o individuo aspirante, ao penetrar no plano sutil das formas e das causas, deve encetar para atingir seu sublime objetivo, qual seja o de trabalhar inicialmente no corpo físico, pois que este sendo ao mesmo tempo o invólucro externo de um núcleo espiritual interno, e moldado e habituado para as partes mais densas da materialidade, tende a querer prevalecer como o senhor por todo o tempo, pois somente assim lhe é possível satisfazer as suas próprias necessidades e paixões. Porém, este mesmo senhor da materialidade, poderá fazer as vezes de um laboratório de inestimáveis experiências quando, adormecida sua ferocidade devoradora e egoística, por uma vontade diligente e inteligente, torna-se possível uma primeira separação dos sentidos internos, antes sufocados, de libertarem-se, permitindo ao Hermes (intelecto sutil) alçar vôo para mundos então esquecidos. Mas isso só se tornará possível quando o homem comum e mundano se permitir ser inspirado pela parte sublime que o habita, promovendo em si uma ruptura, uma mudança de foco para transmutar-se de chumbo em ouro, em consciência alada e desperta, tornando-se o realizador pela Ciência Integral.
Isso nos faz lembrar da citação de um querido irmão de além mar, que parafraseando Arturo Reghini nos diz: "Quem pretende uma consciência iniciática adaptada aos seus gostos, às suas crenças, aos seus humores, ou está em boa fé e iludido, ou está em má fé. Seja como for, não é, nem pode ser um iniciado".
Seguindo a linha de pensamento deste trecho dos Escritos Herméticos, é possível compreender que acalmando os sentidos corpóreos, trabalhando em si num estado que se assemelha a um transe consciente, pode-se conquistar a liberação da essência sutil e contemplar as revelações do que aqui é chamado de Poimandres (pastor dos homens, ou do egípcio Pe-eieme-n-Re, cuja interpretação seria Ciência de Rá), ou Nous, ou Inteligência Suprema do Mundo inteligível, e isto representa uma evidente divinização do intelecto humano, verdadeira aspiração da Inteligência Hermética.
A INTELIGÊNCIA HERMÉTICA
O nome de Hermes Trismegisto nos aparece como a versão grega da divindade egípcia Thot, o "senhor do conhecimento, aquele que viu tudo e sabe tudo, o mediador das almas, arquivista dos deuses ", cuja denominação Trismegisto deriva de uma qualificação egípcia para "grande, grande, grande", em que já havia sido feita uma adaptação para o grego, e por volta do II século a.C., num registro de um Ostrakon (fragmento de cerâmica ou pedra) com uma inscrição oracular em Saqqâra, necrópole da cidade de Mênfis, antigo Egito, se lê: "Aquilo que me foi dito do grandíssimo e grandíssimo deus grande Hermete". No Corpus Hermeticum, em Poimandres, Hermes pode ser identificado como "aquele que recebe a voz que anuncia a vida imortal aos homens e que difunde a sabedoria revelada do Nous, o Intelecto Divino", e não por acaso o mestre Giuliano Kremmerz usa com meticulosa grandeza e profundidade o termo Inteligência Hermética para designar o estado revelador do despertar Interior, a Inteligência Oculta (espiritual) capaz de nos dar acesso à verdadeira Ars Regia.
Com essa singela reflexão, concluímos por um brado de encorajamento aos buscadores da Ciência Hermética: "trabalha, trabalha e trabalha", pois que em nossa opinião, somente trabalhando sobre si mesmo, purificando-se, no silêncio de seu próprio ser, será possível, pelo despertar do Hermes Interior, acessar a Sabedoria que não está contida em nenhum livro, mas por uma linguagem específica da Alma.
Asiel
(1)- Fragmento do Corpus Hermeticum traduzido das edições do Italiano, Espanhol para o Português.